sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Farewell, 2.009



Only the hard. Only the strong.


terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Vírgula

Ela havia dado o seu coração a ele há muito tempo atrás. Eram namorados. O tempo foi passando e, não se sabe se por incompetência deles ou por ironia do destino, o namoro começou a bambear. Andava meio trôpego, hesitante, sempre na iminência de tombar ao chão. De repente, nela surgiu uma vontade de dar um ponto final em tudo. Na verdade, estava mais para uma vírgula, por esta ser uma pausa menos contundente - e de gramática ela entendia bem. Mas essa vontade vinha acompanhada de uma saudade estranha, que nem ela mesma sabia explicar. Sabia apenas que era uma saudade. E não tardou muito para que ela reavesse seu coração. Titubeando menos do que pensava e mais do que gostaria, ela finalmente colocou a danada da vírgula no lugar que lhe era de direito, sem esquecer, lógico, de colocar os devidos pingos nos is.

Só então que percebeu o porquê daquela saudade. O que ela tava sentindo falta era do coração de volta no seu lugar.








(Jurou nunca mais dar o coração a ninguém. Ou pelo menos enquanto durasse a pausa daquela vírgula.)


sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Nas terras de lá

Beber cerveja não vai ser mais a mesma coisa. E por um bom tempo.

Post Scriptum: Favor, não cortar as madeixas.


segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Brisa

Dei todos os meus sapatos. Os novos, os velhos, os bons, os mais-ou-menos... Dei, mas foi sem nenhum remorso. Dei também minhas roupas, todas. Até as cuecas foram embora, junto com todas as lembranças que elas instilavam. Doei meu relógio, minhas fitinhas do Senhor do Bonfim, meus bonés. Tudo que era adereço se foi. Dei. Arranquei a corrente de ouro malhado e o par de brincos e dei. Dei os lençóis da cama, as toalhas de banho e de mesa e até mesmo os papeis de toalha. Doei tudo.

Agora que eu estou nu, descalço, sem mandinga de santo ou do tempo e sem ouro ou prata pra escambear, hei de ficar mais leve. Tô lavando a preguiça e a vergonha-da-cara. Tô pintando a cara como quem se apronta pra ir pra guerra. Tô leve feito pluma e firme feito bambu.

Tô leve. Agora é só esperar uma boa brisa e deixar que o céu venha até mim... de novo.


quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Seja burro

Por que não viver melhor? Não lave louça! Use pratos de plástico, garrafas de plástico, tudo de plástico. Não gaste tempo a toa. Ande mais leve. Não carregue lixo: jogue na rua, no rio. Deixe tudo mais luminoso: acenda todas as luzes. Tome banhos longos, sem pressa. Esqueça a torneira pingando e pra onde você for, vá de carro. Afinal, se é só um buraco, é porque ainda tem ozônio de sobra na camada. Pense mais em você e menos nas focas e nos pingüins. Urso polares? Você só viu em filmes, e nos filmes eles sempre existirão. O futuro dos seus filhos... Ora, eles já serão adultos, vão saber se virar muito bem. Não ligue pro aquecimento global. Não dê bola pro mundo em que você vive.

Seja burro.


terça-feira, 10 de novembro de 2009

Chove chuva

Chove sem parar.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Coração espumando

Essa é uma daquelas histórias de amizade que a gente só tem uma vez em cada vida...


A gente não nasceu do mesmo ventre. Na verdade, sequer crescemos juntos. Ainda sim, passamos grande parte da infância e pré-adolescência
compartilhando os corredores, ginásios e cantinas da escola. Daí, no penúltimo ano de vida escolar, o destino achou que já era hora da gente esbarrar um no outro. E assim se fez.

Era segundo ano do ensino médio, última série do turno matutino e antes do pré-vestibular. Ao final desse ano, como já era de praxe, o colégio promovia uma viagem a fim de confraternizar todo mundo, como se tentasse amenizar a pressão que se seguiria no ano venturo
. Nesse ano e não muito diferente dos anos anteriores iríamos à Bahia, visitar o Pelourinho, numa viagem que era famosa pelas festas, pelos lugares e por toda a resenha. Decidi ir faltando apenas três vagas no ônibus "3", tudo porque minha até então namorada na época também iria. E então, terminada as aulas do primeiro semestre, estávamos dentro do ônibus rumando a Salvador, numa viagem que durou pouco mais de vinte e duas horas. Saímos daqui no dia trinta de junho, um sábado. No meio da viagem, passando por João Pessoa, uma garota teve sua bolsa roubada e, por isso, ficamos parados por quase duas hora na delegacia para efetuação do boletim de ocorrência. Na verdade, viramos a noite parados em frente à delegacia. Já nos primeiros segundos do dia primeiro de julho de dois mil e um, uma de nossas colegas puxou um efusivo parabéns: era aniversário de Vinícius.

E foi assim que tudo começou. Cantei parabéns levado pela comoção do grupo, tal qual nós fazemos quando alguém aniversaria
em pizzaria, sem saber ao certo quem estava aniversariando. Logo descobri quem era o felizardo e fui lá dar o primeiro de muitos apertos de mão que viriam. A viagem seguiu inesquecivelmente e, quando menos percebi, já estávamos de volta, na quarta-feira quatro de julho. Já na quinta todos do grupo confabularam em uma pizzaria e, quando menos percebi, descobri que o até então "aniversariante" estava do meu lado, conversando uma conversa que fluía sem nenhum esforço. Acabara de ganhar um grande amigo, mas ainda não tinha percebido. Logo já tinha o seu telefone, sabia o seu endereço e até o nome da sua mãe. Os gostos musicais, a forma de pensar, de agir, os valores... tudo foi se mostrando deveras parecido. No colégio, chegaram a perguntar se a gente "tava ficando" e esse era um questionamento muito engraçado. Logo o segundo ano findou-se e, quando menos percebi, eu e ele nós víamos todo dia. Pode parecer meio gay, essa coisa de ver um homem todo dia e tudo mais, mas era assim mesmo. E era bom. Quando isso não ocorria, um vazio era gerado quase que instantaneamente.

E veio o pré. E com ele a tristeza de não ter ficado na mesma sala. O pré se passou apenas para firmar algo que já era dedutível. Veio o fracasso do primeiro vestibular, o que não chegou a nos abater. Um ano mais tarde, era a sua vez de ingressar na faculdade, e somente a sua. Foi nesse momento que eu vi o quanto eu era dependente daquele "dia-a-dia". Agora era só eu e eu mesmo. Não tinha mais com quem conversar sobre música, mulheres e
heavy metal. Estava abandonado. Passei a fazer meu dever-de-casa não motivado pela necessidade ou vontade de também chegar lá, mas por não conseguir agüentar aquela solidão. Dois anos mais tarde chegou a minha vez e, embora tudo parecesse perdido, o vínculo ainda permanecia. E foi se fortalecendo como pôde. Embora a vivência não fôsse mais a mesma, a essência de tudo ainda permanecia. E cada pequeno encontro no corredor daquele hospital era como se nos levasse pr'aquela viagem de novo, pro pré-vestibular, pro tudo... tudo vivido de novo nos poucos minutos que a gente dispunha antes de cada um seguir para sua aula. E os anos foram passando, passando, sem que eu pudesse - quisesse, na verdade - perceber como seria daqui pra frente.

A questão é que a vida é assim mesmo. A gente nasce sem sequer saber como respirar e, quando menos se espera, já estamos alçando vôo
, muitas vezes pra longe de tudo e de todos. Meu tão querido e estimado amigo, mais uma vez, foi-se. Voou. Debandou. Foi pra longe. E eu fiquei só de novo. Sábado passado, momentos depois de findar mais um aperto de mão, foi difícil ir embora. Cada degrau de escada que eu descia era um flash que vinha à mente. Colégio, viagem, faculdade, histórias, estórias. Não que eu fosse descabar a la menininha manteiga-derretida, acabar-me em lágrimas e voltar lá para dar mais um abraço. Não. Isso, sim, seria uma coisa gay. Mas o continuar passo-a-passo foi revestido por pura nostalgia, por pura saudade. Saudade que eu ouso afirmar que nunca - com infinita ênfase no "nunca" -, nunca senti por mais ninguém. Todas as minhas outras saudades, quaisquer que tenham sido, não são nada comparadas a essa. E ela perdura desde o acordar no outro dia. E vai perdurar até o fim dos meus dias. Porque amigo é amigo. E a gente, às vezes, precisa estar longe para saber o seu valor.





Um abraço, meu irmão. E até breve. De novo.


terça-feira, 27 de outubro de 2009

A Monalisa

Sêu Fulano-de-tal era uma morador de rua. Desde de pequenininho, na verdade. Não se lembra ao certo de ter tido mãe, pai ou algo do gênero. Nunca foi de ter muitas companhias, mas não por vontade própria. Simplesmente não tinha com quem compartilhar o muito tempo livre que lhe sobrava no dia-a-dia. Dormia há muito sobre um tênue pedaço de papelão em frente a um ateliê de pintura muito badalado. Seu proprietário era um senhor com uma certa idade, que passava o dia a compor quadros maravilhosos a pedido dos seu clientes. Sêu Fulano olhava tudo pela enorme janela de vidro que havia em frente ao estabelecimento.

Certo dia, Sêu Fulano se deu conta que o pintor, antes de fechar seu negócio, colocou pra fora da loja uma caixa. Teve curiosidade de xeretar a caixa e, para sua surpresa, descobriu pincéis, aquarelas, restos de tinta não usados e uma infinidade de coisas que o pintor com certeza usava na sua labuta diária. Tomando-os por lixo, pegou-os para si. E passou a observar o pintor mais avidamente daí em diante, na esperança de poder criar pinturas tão belas quanto as dele. Dia após dia ele "treinava" no muro de um beco nas proximidades. Sem muito contentamento com o seu desempenho, Sêu Fulano estava sempre começando do zero de novo, e de novo, e de novo. Não desistiria até ter sua própria "Monalisa". Passava as horas do dia observando e as horas da madrugada pintando. Dormia pouco e isso sequer o afetava. A pintura o apaixonava cada vez mais a cada dia.

Com o tempo, ele foi pegando o jeito, aprendendo alguns efeitos e técnicas por si só. Começou a se arriscar a pintar coisas belas em muros um tanto quanto feios. Quando a noite caía e as pessoas repousavam em sua camas quentinhas, ele saía a procura da tela que lhe serviria por aquela noite, mesmo correndo o risco de ser tomado de assalto por algum bandido ou policial mal-intencionado. Com o amanhecer do dia, as pessoas passaram a admirar pinturas "que apareciam do nada", que davam um ar de natureza a um ambiente que só conhecia correria e poluição. Mas Sêu Fulano permanecia no anonimato.

Certo dia, o pintor esqueceu a chave de sua casa dentro da loja e teve que voltar para buscá-la. Lá chegando, deparou-se com um homem que pintava o muro ao lado de sua loja em plena escuridão. Intrigado com aquilo, com a qualidade da pintura, o pintor desceu do carro e aproximou-se do homem.

- O que faz aqui a essa hora, amigo? Não acha que é meio tarde para pintar?

- Eu moro aqui, senhor. E gosto de pintar a essa hora... é mais calmo e não há tanta gente olhando.

Apesar de morar ali há muito, era a primeira vez que o pintor via Sêu Fulano. Tudo aquilo o deixou curioso - a pintura, o papelão, as tintas. Durante a madrugada eles conversaram sobre várias coisas. O pintor descobiu de onde viera o material de pintura, bem como a inspiração de Sêu Fulano. Achou aquilo tudo muito interessante, mais ainda quando Sêu Fulano fez uma revelação:

- Eu tenho muita vontade de pintar uma tela sobre uma praia. Adoraria ter meu próprio horizonte, minha própria areia branca, ondas, sol a pino...

- E por que não o faz? Não te falta mais nada.

- Eu nunca estive numa praia, senhor. Não sei ao certo como é.

Na manhã seguinte, após concluir a pintura que havia começado - que era sobre um pássaro que fizera um ninho num poste na mesma rua - o pintor levou Sêu Fulano à praia mais famosa da cidade, antes mesmo do sol despontar no longínqüo horizonte. Não havia ninguém à exceção dos dois. Durante os minutos que o nascer-do-sol procedeu, o tempo do Sêu Fulano parou. Não piscou com medo de corromper a imagem que se depositava na sua mente e no seu coração. Nunca havia visto algo tão bonito. Na verdade, nem sabia se "bonito" era suficiente para descrever aquilo tudo. Pediu permissão ao pintor para ficar ali mais um pouco quanto o artista precisou ir embora. Contemplou o máximo que pôde de tudo. E voltou no fim da tarde contando cada passo.

Na manhã seguinte, o pintor surpreendeu-se ao ver que o muro exatamente em frente à sua loja fora decorado. Era algo belíssimo, questionando-se se sua capacidade e habilidade poderiam produzir aquilo. Procurou Sêu Fulano mas não o encontrou. No lugar onde ele dormia havia apenas um pequeno pedaço de papelão com algo escrito em letra sofrida e disforme, mas ainda legível.

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Em todos esses anos que eu morei aqui, sempre admirei o que o senhor fazia com as mãos. Passava meus dias imaginando se um dia eu seria como o senhor. Encontrei nas tintas um motivo a mais para seguir em frente. E sempre tive vontade de pedir ao senhor para me mostrar como era o horizonte, mesmo que fosse em um de seus quadros.

Agora eu sei como é. Agora eu sei.

Obrigado

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Na mesma hora um cliente vinha chegando à loja.

- Nem reparei que o senhor tinha decorado o muro em frente, Osvaldo. Ficou muito bonito mesmo. Quero um igual para mim... Pode ser?

Rindo, Sêu Osvaldo, o pintor, respondeu:

- Não, meu caro, não pode. Eu nunca conseguiria. Nunca...





domingo, 25 de outubro de 2009

Fotografia

As estrelas são coisas que estão muito, muito longe de nós. Indescritivelmente vastas, de tão longe, chegam aos nossos olhos como meros pontinhos no céu, como se alguém, num momento de descuido, deixasse respingar tinta branca sobre um carpete escuro. Elas estão tão longe que, antes mesmo que possa impressionar nossa retina, a luz por elas emitida tem que atravessar o próprio infinito.

Pode parecer estranho, mas eu sempre penso nisso quando olho para o céu. No momento em que ponho os olhos numa estrela vejo como ela era há muitos anos atrás, anos esses que sua luz levou para chegar até mim. Logo, toda estrela está sempre nos mostrando o seu passado, como ela era. E o que mais impressiona é que, se você parar pra pensar friamente, você está olhando diretamente para o passado. No presente, mas olhando pro passado.


Hoje eu cheguei a conclusão de que é exatamente isso que as fotografias fazem.


sábado, 17 de outubro de 2009

Quem bom seria...

se todo caminho fosse assim.


(taca o dedo pra ampliar)


quarta-feira, 14 de outubro de 2009

?

De tanto lhe dizerem o que fazer, agora era ele que não sabia o que fazer da própria vida.
Questionava-se a todo momento até onde vai a culpa por não se saber o que fazer da vida.
Era normal? É assim com todo mundo? E o que as pessoas vão pensar? E se algo der errado?









Se você souber a resposta, por favor, avise. Ele vai ficar muito grato.


segunda-feira, 5 de outubro de 2009

O colibri

Acordou. Preparar-se-ia para mais um ritual que se seguia toda manhã: levantar, tomar banho, tomar café, colocar a roupa da escola, arrumar o material, entrar no carro, ir para a escola. Era sempre assim desde que começara a cursar a sexta série. Não que gostasse muito, pois acordar cedo era realmente um saco. Mas o que mais monotonizava o processo era o fato de sempre ser uma coisa maquinada, sem nenhuma novidade ou surpresa.

Naquele dia, porém, ao se dirigir para o carro, notou algo estranho. Numa das plantas de médio porte do jardim havia algo parecido com um ninho. Ao chegar mais próximo, ele comprovou que o era. Alguma ave, a princípio, teria feito daquela planta sua morada. Tamanha foi a sua surpresa quando, segundos depois, descobriu que aquele era o ninho de um beija-flor. Nunca havia visto um tão bonito e reluzente como aquele. Tentou pegá-lo, mas ele frustrou-lhe a tentativa. Ao chamado do seu pai, entrou no carro e foi para a escola. Passou a a manhã pensando se o pequeno colibri estaria lá quando retornasse.

Para sua surpresa ao retornar o ninho não só estava lá, como também estava a ave, pousada em toda a sua majestade. Sem pensar muito, o garoto tentou apanhá-lo mais uma vez, o que fez com que o pássaro voasse para longe. Entrou em casa para o almoço, planejando um modo mais furtivo de apanhar o fujão. Após a refeição, retornou ao jardim e ficou contemplando o pássaro em todo o seu esplendor. Não conseguia pensar em nada que pudesse torna aquele beija-flor captivo. Vez por outra, ele voava pelas flores próximas, pairando no ar como se houvesse um fio invisível sustentando-o do céu. Ao fim da tarde, o colibri ainda estava livre e o garoto, inquieto.

Durante várias semanas, esse evento se repetiu. Entretanto, apesar de aparentemente monótono, o tempo dispendido em pensar numa forma de capturar o animal instigara o garoto a retornar dia após dia. Tentou algumas maneiras pouco efetivas, que quase sempre resultavam em fuga da ave e resignação do menino. Teve até uma vez na qual o pássaro demorou quase um dia inteiro para retornar. Mas o garoto parecia gostar daquilo. Passava as tardes sempre lá, na esperança de que o pássaro fosse seu.

Depois de muito tempo sem sucesso, numa manhã morosa, o garoto já sem grande interesse percebeu que o ninho do beija-flor não estava mais lá. Na verdade, uma torrente chuvosa ocorrida na madrugada daquele dia havia destruído a frágil morada. De imediato, o menino começou a procurar o pássaro pelas redondezas. E viu. Estava parado, em plena desolação, debaixo de uma frondosa folha de uma árvore de maior porte na proximidade. Aproximou-se lentamente a fim de não espantar o desabrigado. E então aconteceu: o beija-flor levantou vôo e veio ter no ombro do menino. Despojada e cuidadosamente, o garoto o pegou entre os dedos, tendo cuidado para não machucá-lo. O pequeno beija-flor tinha um ar de desamparo e isso logo comoveu o menino. Naquela mesma tarde, o garoto levou a ave para uma praça próxima e alocou-o no oco de um imenso baobá. Ali o pássaro sentiu-se em casa. Todo dia, após voltar da aula, o menino ia à praça ver o beija-flor. E o beija-flor estava sempre voando, feliz. O menino jurava que, por vezes, se ele pudesse falar, agradeceria-o por tudo. Para o menino, o fato de ter conquistado aquela coisinha pequena e frágil já tinha valido tudo.

Um dia o beija-flor foi embora, é verdade. Mas mesmo assim o garoto continuava a ir à praça todo santo dia. "Ele não pode ter ido muito longe", ele dizia. "Colibris nunca vão embora... Colibris nunca abandonam sua violetas...". E ele estava certo. Por Deus, como estava certo.





Post Scriptum: Nunca abandonam suas violetas.


quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Mais um dia

Terça-feira última, madrugada do dia 29 de Setembro de 2009.

A.M.M.S, feminino, 29 anos, natural e procedente do interior do estado de Pernambuco, morando em Natal desde os sete anos de idade. A.M.M.S. - a qual convencionaremos chamar apenas de "A" - chega ao pronto-socorro do Hospital João Machado (HJM) trazida por um daqueles cidadãos de bem que possuem o coração maior que a caixa torácica. A foi encontrada deitada na calçada de uma igreja bastante conhecida na cidade, igreja essa que meus amigos apelidaram de "Casa da Moeda" e que, coincidentemente, pertence a um rapaz de bem chamado Edir Macêdo (apelido mais coerente, impossível, né ?!). O senhor que ajudou A alegou que ela apresentava um comportamento estranho, como se estivesse passando mal, e perguntou se ela não queria ser levada ao hospital. No caminho, entretanto, algumas revelações de A fizeram o senhor se dirigir para o HJM. Lá chegando,
A foi prontamente atendida pela equipe de plantão, e é aqui que começa a sua (breve) história.

A, conforme já dito, nasceu em Pernambuco, onde passou o início da sua infância. Aos 3 meses de idade, seus pais a abandonaram à própria sorte e - não me pergunte como -, aos sete anos, ela mudou-se para Natal. Desde lá, A vive perambulando pelas ruas da cidade, sobrevivendo com aquilo que as pessoas dão, quase sempre dinheiro em pequena monta. Foi na rua que ela conheceu e aprendeu sobre tudo aquilo que sabia até o momento. Não tinha parentes, sequer amigos. Estava no que aparentava ser o sexto mês de uma segunda gravidez completamente negligenciada. Perceba que eu disse segunda. A primeira havia findado há pouco mais de dois meses e o rebento também não recebera os cuidados adequados. Em ambas, o pai da criança era desconhecido. A chegou ao hospital com sintomatologia típica de um adicto em síndrome de abstinência. Ao ser indagada, alegou ser usuária de drogas desde o final da infância. Ultimamente, sua droga de predileção (não sei se se pode chamar isso de "predileção") era o crack, o qual não era consumido havia dois dias, justificando o quadro que ela apresentava. Questionada sobre parceiros e atividade sexual, A disse que possuíam vários parceiros - a ponto de não saber dizer quantos - e que praticava sexo "com quem quer que fosse" para conseguir o dinheiro da droga. Consumava-o no meio da rua mesmo, sem choro nem vela. Indagada sobre o pré-natal das crianças, relatou que nunca fez. "A criança simplesmente nasce, dotô". Nesse ponto, devemos agradecer à natureza, que sempre soube o que fez mesmo.

Passado esse momento, medicação adequada foi prescrita para A. Pelo menos nas próximas doze horas ela se sentiria melhor. Depois da consulta, ela ficou sentada num banquinho, admirando o jardim e se empanturrando com metade do lanche de alguém - metade de um sanduíche natural e metade de um achocolatado. "Essa é a melhor refeição que eu faço na vida, dotô". Pela manhã, A permanecia sobre o mesmo banquinho, acordada, quieta, talvez ponderando se aquele seria "mais um dia".

Engraçado que a enfermeira que sempre reclamava que faltava água no bebedouro, hoje, não reclama mais. De repente, a vida dela pareceu uma maravilha.








Post Scriptum: Baseado em fatos reais. Talvez reais demais, eu diria.


terça-feira, 29 de setembro de 2009

Mais alto que as árvores

Stop-motion fantástico.
História deslumbrante.

E o piano... Ah!, o piano.




Joseph Mann sabe o que faz.








Post Scriptum 1: Apesar de já ter mostrado a milhões de pessoas, eu nunca me canso dessa animação.

Post Scriptum 2: Hei de ser pianista um dia, ah, como hei!

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Muda

"Muda, que quando a gente muda o mundo muda com a gente
A gente muda o mundo na mudança da mente
E quando a mente muda
a gente anda pra frente
E quando a gente manda ninguém manda na gente"


quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Onde está o amor?

T'aí uma pergunta difícil de ser respondida. Acho mais fácil, inclusive, alguém saber o paradeiro de Jesus. Mas o do amor... improvável. Muita gente que ama sequer sabe definir o que é o amor. Talvez saiba que sente, mas sem muita certeza. Se você perguntar, vai escutar coisas do tipo "é um fogo aqui dentro" ou "é uma sensação boa, indescritível, que a gente nunca quer que acabe...". Talvez seja. Pra mim, amor é igual a cu. E para cada um tem um significado diferente, muito embora suas variações estejam dentro de um espectro previsível.

Mas onde ele está? Considerando que todo mundo tem o precursor do amor dentro de si, é de se estranhar que ele não esteja mundo afora, tornando as cores mais bonitas e o canto dos passarinhos mais agradável. Mas ninguém vê esse tal desse amor. Achar raiva é fácil. Ciúme e inveja então, PUF, nem se fala. Discórdia, cobiça, avareza, maldade... estão ensimesmados por toda parte. Até a felicidade e a alegria, tão raras hoje em dia, são encontradas se você procurar direitinho. Mas o amor se esconde. Onde? Só Deus sabe. E se souber. Às vezes eu penso que, de tanto ser desacreditado por todo mundo, ele escolheu o exílio. E isso é bem desesperador. Dizem que a loucura andava de mãos dadas com ele, mas nem ela sabe onde ele está. E agora só anda pelos cantos, marejando os olhos na esperança que ele, um dia, volte.

A verdade é que, quem ainda o tem, trata de esconder. O mundo dá muito porrada, é verdade, e ninguém que pôr o pouco amor que lhe resta em risco. Ver o bichinho assim, apanhando de graça também já é palhaçada. Com tanta gente virando as costas pros outros - porque virar as costas é sempre mais fácil -, não há amor que vingue. A bondade sozinha não pode dar conta do recado. Nem a felicidade, a esperança e até mesmo a fé. Nenhuma delas tem sentido se não tiver a ajuda do amor. E nem me venha com esse papo fajuto de paixão ou o que quer que seja esses sentimentos piromaníacos e suicidas, que muitos usam para tentar justificar a falta de amor que os acometeu. Quem vive para alimentar a alma de paixões chega ao fim da vida com um "eu te amo" entalado na garganta. Amor é casamento; paixão é sexo anal sem camisinha com uma meretriz sabidamente HIV-soropositiva. E ponto. Não se compara. Não se substitui.

Mas eu não culpo quem, por um motivo ou outro, "esconde" o amor que tem. Logicamente que, empregado na circunstância certa, ele não precisa de esconderijo. Ele se sustenta em si mesmo, autocatalisando-se, porque não depende de mais ninguém para existir a não ser de seu portador. E tem um efeito tão avassalador que faz a gente parecer bobo, mongol, abestalhado, imbecil, idiota e, em qualquer outra situação, odiável. Mas eu sou apenas só mais um que tenta falar dele como se fosse fácil. Na verdade, pouquíssimos são aqueles que o conhecem. E no fundo, quem conhece mesmo não precisa estar explicando. Porque é assim, inexplicável. É assim indizível.








Post Scriptum: Falar de amor é muito difícil, cara...


quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Chuva?

- Hunf-hunf! Ó, tá sentindo esse cheiro?
- Que cheiro? Num
sentindo nada...
- Cheiro de chuva... Num tá sentindo, não?
- Não. Você deve tá ficando louca... Deve ser excesso de
agrotóxico na cabeça.
- Não, não. É cheiro de chuva, sim! Eu
sentindo...
- Que chuva que nada,
mulé. Deixe de coisa...
- Sempre gostei da chuva desde
pequenininha, desde sementinha. Se toda planta pudesse sentir o cheiro da chuva saberia que era hora de florescer...
- Ai, ai, ai. Eu desisto.
- Você vai ver. É chuva, sim.


E então as duas foram pegas num banho de regador.


terça-feira, 8 de setembro de 2009

Diálogo

Porque dialogar é importante.




quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Seja o milagre

Era uma noite aparentemente comum. Num observatório não tão distante...

- Não, não pode ser! - grasnou o Dr. Alan Gross, Ph.D em astrofísica e astronomia, perito em dinâmica de corpos estelares, ao retirar os olhos do telescópio. - Isso não pode ser verdade!

- O que? O que houve? - indagou seu assistente, Victor Hempa. - O que foi que você viu?

- Um asteróide, Victor... - o Dr. Gross agora suava frio. - Um asteróide está vindo em direção à Terra...

- Não pode ser! - e então foi a vez de Victor olhar no telescópio. - O que nós vamos fazer?

- Nada. - resignou Dr. Gross. - Provavelmente nada.


(...)

Em pouco tempo a notícia havia se espalhado e tomado proporções globais. Os quatros cantos do mundo se preparavam para o que muitos batizaram como "o dia do Apocalipse". A mídia fazia a sua parte...

- Acabamos de receber a notícia de que o asteróide descoberto pelo cientista Alan Gross vai mesmo se chocar contra o nosso planeta... - anunciava um repórter em rede nacional. - Segundo as previsões do p
róprio Gross, o asteróide vai colidir dentro das próximas vinte e quatro horas. Os especialistas dizem que não há nada que possa ser feito... provavelmente nada. - e então a câmera deu um zoom dramático no repórter. - Essa é a hora que todos nós devemos manter a calma e rezar para um milagre.

Famílias ao redor do mundo se reuniam em frente à TV, monges tibetanos estavam em oração, pessoas faziam grandes correntes no meio da rua, outros foram à praia e tinham até aqueles que mostravam cartazes com dizeres do tipo "sejam bem-vindos".



Mas ninguém imaginava que, num lugar não tão isolado, havia alguém disposto a ser o milagre...




sexta-feira, 28 de agosto de 2009

É ela

É ela, sim.

Foi com ela que tudo começou. Foi ela que, de início, arrancou-me a timidez e me mostrou o mundo de possibilidades que se escancarava à minha frente. Foi ela que, por vezes, fez-me ir à luta quando esta já parecia perdida, e me mostrou que o sabor da vitória, no fim, sempre justifica tudo. Foi por ela que eu perdi as estribeiras, que eu gritei, dei show, virei galã, conquistador barato, canalha. Com ela, eu conheci o lado mais animalesco do meu ser. Foi ela que me deixou bonito, às vezes, também. Foi ela também que me deixou rico e me encorajou diversas vezes a alcançar "a maçã do topo da árvore". Na verdade, ela já era, por si só, uma maçã do topo da árvore. Foi ela que fez minha cabeça fervilhar, meu mundo girar, fez-me ver estrelas, cometas, barcos, navios e até mesmo elefantes no céu. Foi ela que, dentre tantas outras, ganhou o meu olhar, o meu beijo, o meu carinho e, quase sempre, a minha gratidão. É dela que eu lembro e é com ela que eu quero estar quando a felicidade bate à minha porta. Por ela, já fiz coisas inexplicáveis, por que não indizíveis. Larguei as outras só por causa dela e, embora muitas outras ainda passem por minha vida, no fim, é com ela que eu quero terminar. Porque é ela que está sempre radiante da cor do sol quando me vê, como se a cada novo encontro eu tivesse que conquistá-la de novo, do começo, só pra relembrar tudo que já passou. Apesar de eu não falar muito, ela sabe que o meu amor é todo dela. Ela, por sua vez, também não é muito de falar, mas eu sei que ela me ama em pé de igualdade.

Por isso, é ela!

E foi por ela também que eu menti, que eu enganei, trapaceei, traí. Por ela, eu traí a confiança, a minha, a dos outros, a confiança que tinham e a que não tinham em mim. Por causa dela, fui chamado de conquistador barato e de canalha, mas também de ridículo, de sem-limites, de sem-noção. Foi por causa dela que eu levei alguns tapas na cara, mas nenhum tapa, por pior que fosse, era pior que o dela. Ela me mostrou que o chão é o pior lugar onde se pode chegar, literalmente. Mostrou-me o fundo do poço com um riso sardônico no rosto. Fez-me pagar vexame, pagar conta, pagar multa, pagar mico, pagar de ridículo. Caçoou de mim quando estive em maus bocados. Por ela eu passei mal. Por ela eu fui confundido até com bandido. Foi ela que me seduziu só pra que eu não pudesse ter as outras e que, depois de tudo, deixava-me sozinho a ver navios, os mesmos navios de antes. Ela me fez ter ciúme dela e das outras. Mostrou o que é raiva, meteu-me em confusão. Por ela eu até briguei, usei meus punhos em cólera, esmurrei outros por ela. Logo eu que sou tão pacífico (Pra você ver, ?!...). Por ela fiquei tonto e desorientado, sem saber pra onde ir e sem saber o que dizer. Era ela que não saía da minha cabeça nas horas vagas. E nas não-vagas também, por que não?! Foi por causa dela que tudo chegou a desabar quando parecia perfeito. Viraram as costas pra mim por causa dela. Não tive quem eu queria por ciúmes dela.

Mas mesmo assim, mesmo em meio à tanta tribulação, é ela, meu chapa.

Porque depois de tanto tempo de relacionamento, depois de tanta coisa vivida juntos, cheguei a seguinte conclusão: nas vitórias, ela é extremamente merecida; nas derrotas, imprescindivelmente necessária. Eu te amo, loirinha.








Post Scriptum: Nunca estive tão apaixonado... Ah, como é bom estar apaixonado...


quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Clichê

Às vezes eu tenho vontade de ter uma vidinha clichê.


Ter um dia clichê, daqueles que se acorda sempre pra comer torradas no café, ir ao trabalho, voltar para a feijoada do almoço, novamente ao trabalho, pegar as crianças no curso de inglês e voltar pra casa, apreciando aquela sopinha de legumes antes de dormir.
Ter amigos clichês, aqueles com os quais eu possa conversar sobre amores, decepções, aventuras, conquistas e mostrar que sempre pode haver um ombro para se chorar.
Viver um amor clichê, daqueles nos quais se diz "docinho de coco" e "eu te amo" a cada batida do relógio.
Ter sentimentos clichês, sem precisar esconder o choro e o riso que a vida traz.
Agir de modo clichê, dando um buquê de flores, uma esmola, um aperto de mão e sabendo que isso tudo não significa muito, que o que importa está sempre invisível aos olhos e ao coração.
Ser, enfim, uma pessoa clichê, daquelas bem clichê mesmo.


À vezes eu tenho vontade de ser clichê.
Mesmo sabendo que surpreender e contrariar o comum e o esperado é sempre mais interessante.


segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Pegar uma estrela

Essa noite, acordei no meio da madrugada e subi alto no céu. Fui lá pra pegar uma estrela.






A ingenuidade foi tamanha que eu acabei queimando a mão.


terça-feira, 18 de agosto de 2009

Travessia impossível

"É uma travessia impossível. Ninguém que tentou jamais voltou. Aquele é um rio amaldiçoado. Dizem que ela espera lá, espreitando, ansiando pela próxima vítima..."



Hermann, Hagar e Henoch eram três irmãos que adoravam viajar. Numa de suas epopéias, certa vez, andando por uma estrada tortuosa e deserta que marginava uma floresta tropical, eles se depararam com um rio. O rio não era tão largo, mas era fundo demais para vadear e perigoso demais para atravessar a nado. Os irmãos, porém, acostumados a passar por esse tipo de pendega, logo descobriram um modo de contornar o problema. Equipados com ferramentas apropriadas, os três irmãos construíram uma ponte com toras e cipós, trabalho esse que levou dois dias e meio para ser concluído. Feita a ponte, eles a colocaram na área onde o leito d'água era mais estreito, tornando travessia possível. Já era noite, mas mesmo assim eles decidiram atravessar. Já tinham perdido muito tempo.

Já estavam na metade da travessia quando viram um vulto encapuzado. Lembraram-se de uma lenda contada pelos aldeões da localidade sobra uma maldição que existia naquele rio, sobre a travessia impossível e sobre os muitos que perderam suas vidas tentando, mas não titubearam. Continuaram caminhando em direção ao vulto quando, de supetão, ele falou:

- Como ousam? - a voz grave ecoou por toda parte. Deram-se conta de que quem falava era a Morte, a própria. O que teoricamente seria seu rosto estava imerso na escuridão. Também parecia não ter pés, uma vez que flutuava sobre o tronco da ponte improvisada sem tocá-lo. Seu manto era mais negro que a própria escuridão.

Após um breve monólogo, os irmãos perceberam que a Morte estava zangada. Eles tinham acabado de lhe negar três vítimas, uma vez que o normal era que os viajantes se afogassem nas águas turbulentas do rio. Contudo, surpresa face tamanho petardo, a Morte decidiu que ofereceria a cada irmão uma recompensa por terem sido astutos o suficiente a ponto de lhe escaparem. Qualquer coisa que fosse.

Hagar, o irmão mais velho, combativo como sempre, pediu a Morte a sua foice, afiadíssima e que nunca perdia o fio. Sem hesitar, ela o entregou o seu objeto de desejo e deixou que fosse.

Hermann, o irmão do meio, conhecido por sua arrogância e prepotência, resolveu humilhar ainda mais a Morte e pediu o seu colar, que tinha o poder de reviver os mortos. Prontamente, o objeto
lhe foi entregue sem qualquer objeção.

Henoch, por sua vez, sendo o caçula, ficou por último. Dos três irmãos, esse era o mais humilde e sábio, mantendo-se sempre numa posição defensiva desde o início. Afinal, trava-se da Morte. Pediu, então, algo que lhe permitisse sair daquele lugar sem ser seguido por ela e a Morte, meio que de má vontade, entregou-lhe seu manto, que tornava o seu portador completamente invisível.

Após atravessarem o rio, os irmãos continuaram sua viagem, comentando, assombrados, a aventura que tinham vivido e admirando os "presentes" da Morte. O tempo passou e cada um tomou seu rumo.

Findada a viagem, Hagar foi ter com um velho inimigo. Armado com a foice, ele o enxotou para fora da sua aldeia, humilhando-o na frente de todos e dizendo que se ele tornasse a voltar, seria fatiado como um bife. Quando o inimigo virou as costas para ir embora, Hagar trespassou a foice pela seu tórax, matando-o no mesmo átimo. Impressionada e ao mesmo tempo assustada, a multidão recuou e temeu. Hagar se gabou de possuir a arma que, segundo ele, até mesmo a Morte temia. Na mesma noite, agindo por mera cobiça, um dos aldeões que presenciara a foice em ação entrou na casa de Hagar enquanto ele dormia, roubou-lhe a foice e cortou a sua garganta. Assim, a Morte levou o primeiro irmão.

Entrementes, Hermann viajou para sua própria casa, onde vivia sozinho. Ali, usou o poder do colar para trazer de volta a figura de uma moça a qual tivera esperança de desposar antes da sua morte precoce, ainda na juventude. A moça, contudo, estava triste e fria, como que separada dele por um véu. Embora estivesse agora no mundo dos vivos, era visível que seu lugar não era aquele, e ela sofria. Diante disso, Hermann, enlouquecido pelo desesperado desejo, matou-se para poder verdadeiramente se unir a ela. Então, a Morte levou o segundo irmão.

Já tendo levado dois irmãos, a Morte partira em busca do último, Henoch. Entretanto, por mais que procurasse, jamais conseguia encontrá-lo, e isso fez com que sua busca fosse vã por muitos anos. Somente depois de velho, quando uma vida inteira já lhe tinha sido suficiente, foi que Henoch despiu a capa e a deu de presente para o seu filho, alertando-o para seu uso e sua importância. Quando a Morte o encontrou finalmente, Henoch a acolheu como uma velha amiga e acompanhou-a de bom grado, e, iguais, partiram dessa vida.

domingo, 9 de agosto de 2009

Mais um dia

Acordou achando-se o dono do mundo. Tá bom, vá... Do mundo também não. Mas do bairro talvez. O importante era que estava muito, mas muito confiante. Mais do que nos dias que passaram. Hoje tava com aquela cara que ia ser "o" dia.

Levantou tropegamente da sua almofada. Não que tenha sido uma noite mal dormida, não, mas a expectativa deixara-o agitado. Foi até a cozinha abastecer-se da sua dose matinal e diária de leite. Para um como ele, levava uma vida com regalias além do comum, realmente de fazer inveja. Saiu pela janela por julgar ser mais rápido e menos previsível. Saltou do portal da janela para a grama macia, verde e reluzente, que formava um belo atapetado no jardim e lembrava fortemente um roupão de veludo. Sentindo a maciez no solo onde pisava, ronronou preguiçosa e manhosamente. Era uma bela manhã de sol e ele ainda estava apenas estirando as pernas. Notou o movimento na calçada: pessoas passavam naquilo que, provavelmente, era o início do dia delas. Cada uma com o seu objetivo, com algo na mente que precisava se feito ou alcançado.

E, por isso, com ele não era diferente. Sem mais, lembrou-se do porquê aquela manhã deixara-o tão firme de si. Virou-se para a casa e, vendo a parede que dividia a cozinha do jardim, divisou a janela e, ao seu lado, a calha. Aquela era uma calha bastante velha e desgastada, parte pelo tempo e parte por ele mesmo, que gostava de brincar de subir por ali para ter acesso ao telhado. Era perceptível, inclusive, as marcas das unhas no comprimento calha-acima. Caminhou descompromissadamente em direção a ela como nunca caminhara todos esses anos. No começo, subir aquela calha era bastante difícil; exigia força e preparo além da sua capacidade. Hoje, no entanto, era possível conseguir fazê-lo, como diriam, com uma mão nas costas. E assim o fez. Subiu antes que o relógio da sala, datado de 1879, herança da família, conseguisse estalar um tic-tac completo.

Aí o telhado era outro mundo. O alto do mundo, como costumava pensar. Nem mesmo as belas árvores do jardim - uma mangueira, uma macieira e dois coqueiros-anão -, ligeiramente mais elevadas, ofereciam visão tão magnífica. Mas não queria perder tempo procurando o horizonte hoje. Não hoje. Tinha uma objetivo a cumprir. Fez-se, então, o mais silencioso que pôde. Movia-se tão sorrateiramente que lembrava um tigre-de-bengala se esgueirando pela mata alta antes do clímax do ataque. Nem tinha chegado ao topo da cobertura e já sabia que estava no caminho certo: um barulho denunciava. Algo como um piado ou um canto monofônico, alternado por momentos de relativo silêncio. Foi o mais cautelosamente possível em direção à verga do telhado, alcançando-a sem emitir qualquer sinal que o delatasse. So far, so good. Ainda agachado, foi brexando vagarosamente o outro lado do telhado que se angulava descendentemente. Foi então que viu. Estava ali, parado, no mesmo lugar de sempre, com o mesmo ar despreocupado de sempre. Perigo nenhum existia.

Agora sua visão binocular de caçador estava fixa no alvo que não exibia qualquer abalo. Por um instante tudo parou. E ele pensou. Pensou, pensou, pensou. Pensou se hoje ia ser realmente diferente ou apenas seria uma enfadonha repetição dos dias anteriores.





sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Plágio

Minha relação com as palavras é dura, que nem a vida. É tão dura que chego até pensar que é injusta, que nem a vida. Quando ela se queixava que escrevia demais e compulsivamente eu me queixava que escrevia de menos e que sentia inveja dos que escreviam demais. E sinto mesmo.
Todos os dias uma fotografia nova é tirada pelos meus olhos, e todos os dias eu sinto vontade de escrever sobre essa imagem, mas me falta muito mais que as palavras, inspiração. E eu acabo esperando algo fuderoso, sensacional, fulminante acontecer para eu transformar numa historinha meia-boca, onde parte das emoções que eu sempre pretendo passar acabam sendo perdidas.

Tô plagiando mesmo. Bati o olho e não pude deixar passar a oportunidade de disseminar aquilo que eu queria dizer há muito tempo e que ela disse em poucos segundos. Porque ela é foda.










(queria ter uma palavra melhor que "foda")


quarta-feira, 5 de agosto de 2009

"Wrecklessness"

Vontade de sair da linha, de descarrilhar o trem.

De fazer o que é errado, de ser vulgar, de não ligar pra absolutamente nada que possam dizer ou pensar. De correr o risco, de fazer o improvável, o impensável. Ficar do jeito que o diabo gosta. E, do alto da minha nobreza, mandar tudo, enfim, para a puta que pariu.

Porque eu gosto mesmo é do lado errado das coisas. Gosto dos intensos e imoderados. Admiro os loucos, os transgressores, os exaltados e, sobretudo, os passionais. Inspiro-me nos intempestivos, nos intermitentes, nos incorretos e incoerentes. Porque não tem conserto, porque não tem limite.

Ser certinho cansa.




Pode não parecer - e certamente não parece, pois eu prefiro assim -, mas eu gosto.


terça-feira, 21 de julho de 2009

Associação livre

Pela janela...

A rua. Iluminada debilmente pelas luzes amareladas dos postes, é como se alguém houvesse esticado um longo tapete que imita o tom malhado de uma onça: espaço negro entremeado por bolas de luz amarela. Padrão típico e estranho ao mesmo tempo. Deserto. Não se vê qualquer forma de vida além dos gatos e,
esporadicamente, bem esporadicamente mesmo, um rato ou outro. As calçadas mal-cuidadas são forradas com recortes de revistas e jornais-de-ontem. Tem aquela aparência de velho-oeste, sabe?! Quando o vento sopra um pouco mais forte até dá pra escutar o barulho dos sacos de lixo - aqueles que guardamos do supermercado - que esperam pela visita do serviçal de laranja no dia vindouro. E tem as árvores, que respondem por aproximadamente 97% da beleza da vista dessa janela a essa hora da noite. Uma, em especial, tem uma copa frondosa que, não fosse pela noite, talvez valesse a pena perder uma tarde só olhando. Ah, esqueci: é madrugada. O relógio aqui marca exatamente uma e quarenta e dois. Agora, quarenta e três. Mas voltando às árvores, preciso dizer que há muitas. "Há" no singular, claro, porque "haver" no sentido de existir é impessoal. Tão impessoal como o rapaz que acaba de entrar no meu campo de visão, descendo a ladeira e, ao que me parece, assobiando para a vida. Cena típica, não? Quem nunca desceu uma ladeira às duas da manhã assobiando? Mas por que ele assobia? Ele está feliz? Talvez triste... É difícil dizer daqui. Apesar de ser segundo andar, essa janela sempre me pareceu mais alta. Meus pais, inclusive, colocaram grades para que eu não saísse voando. Ledo esforço. As grades nunca me impediram de voar... Teve até esse dia que eu sonhei que saía voando pela minha janela e passava por cima de todos os quintais do bairro. Lá embaixo, os garotos paravam de jogar bola para acenar pra mim enquanto planava agradavelmente. Já alcei muitos voos por aí. Nossa! Que divagação... Estávamos falando de que mesmo? Ah, das árvores. É, são muitas. E todas olham para o céu, que, nesse mesmíssimo momento, exibe um tremendo cabedal de estrelas, circunscritas à uma lua daquelas de filme de lobisomem, meia escondida por detrás das nuvens. Meu avô costumava brincar comigo dizendo que a lua escondia um segredo que a gente só descobria olhando. Infelizmente ele se mudou pro andar de cima, o da lua, antes de me dizer que segredo era. Desde então, sempre que ela está lá eu olho, olho, na tentativa de achar alguma coisa pouco usual. Deve ser daí que vem meu fascínio. "Mas onde está a lua, vovô?", eu perguntava a ele. "Não está lá? Ora... Pois vou colocá-la lá agora mesmo!", dizia ele, tentando me convencer de que era ele que a colocava onde bem queria. E de certo modo ele tinha razão. Mas aguçando a visão mais um pouco, consigo, inclusive, ver o mar. Se olhar bem concentrado, posso até imaginar o som que ouviria se estivesse um pouco mais perto, posso tocar nesse som. Tocar esse som seria a materialização de uma bela sinestesia. É aquele som que a gente escuta quando coloca o ouvido perto de uma concha. Mas se você colocar perto da boca de uma garrafa de cerveja vazia também vai escutá-lo do mesmo jeito... sabia? Eu já sabia disso antes mesmo de aprender como se seca uma garrafa de cerveja, aos meus dezesseis anos. É... nesse sentido eu fui meio cafona mesmo. Todo mundo já bebia e namorava enquanto eu tinha outras preocupações em mente. Mas também pudera: algumas das coisas que eu "antecipei" na vida não saíram tão boas quanto poderiam ter sido se eu tivesse esperado um pouco mais. Por isso, hoje, vivo sem pressa.

[pausa bastante prolongada]

Ah! Não tinha reparado ainda, mas o rapaz que descia a ladeira já se foi. Agora estou novamente em um momento solitário e, de certo modo, monótono, moroso. Tudo está na sua estática de sempre, como cabe a quase toda madrugada. Até poderia olhar pra dentro da janela agora, mas aí eu me depararia com meu próprio mundo, aquele no qual vivo o dia-a-dia. Esse mundo não me interessa agora. Lá fora é mais interessante. Na verdade, quase sempre é mais interessante lá fora, fora do ninho. É tudo muito mutante. Os jornais-de-ontem, por exemplo, nunca param no mesmo lugar, embora todos estejam ao
bel-sabor do vento. É como uma folha seca que cai da árvore. Bem filosófico, ?! Até onde chegaríamos discutindo sobre essa folha? Com certeza a lugar nenhum, pois o que vale não é o destino da folha, mas a discussão em torno desse destino. Tá muito vago? Também acho. O problema é que, a medida que a gente fala - ou escreve -, a inspiração vai requerendo quantidades cada vez maiores de nossa energia para continuar no mesmo nível. É como se o ato de falar - ou escrever - em si fosse nos sugando aos poucos, gota por gota. Daí vamos ficando cansados e começamos a fazer conexões pouco ou nada óbvias. É como dirigir com sono, sei lá. Não é a toa que os poetas são pessoas exaustas por vezes. Alguns poemas são verdadeiros partos, como eu já assim escutei da boca de um poeta de carne e osso. E, conhecendo partos como eu conheço, devem ser do caralho. Ah, não, não! Palavrões não são proibidos, sequer recriminados. Quando usados com sapiência e parcimônia, tem efeito igual a uma crase bem aplicada. Já perceberam como é chique uma crase bem aplicada? "Volto à Bahia". Ó! Massa. É de encher os olhos.

[pausa
proposital, menos prolongada]

Mas texto longo também fica chato se a inspiração não estiver em alta. E a janela continuará aqui noite após noite, até que eu alce um
vôo ou muito longo ou muito distante a ponto de não voltar mais. Aí eu terei outra janela. Vocês deveriam experimentar a de vocês. Genial. Ops! Aí vem outro rapaz...








A livre associação foi um método utilizado por Freud, em substituição à hipnose, que consistia em deitar o paciente no divã e encorajá-lo a dizer o que viesse à sua mente, sendo também este convidado a relatar seus sonhos. Freud analisava todo o material que aparecesse, e buscava entendê-los e encontrar os desejos, temores, conflitos, pensamentos e lembranças que pudessem se encontrar, que estivessem além do conhecimento consciente do paciente.


Post Scriptum: Queria beijar uma tartaruga agora...


segunda-feira, 13 de julho de 2009

Fora do ninho

Não sei se numa noite chuvosa ou numa tarde de verão. Talvez em nenhum dos dois. Mas foi num momento assim, momento de bobeira, que painho e mainha aproveitaram para fazer valer o bíblico "crescei e multiplicai-vos". Daí nove meses depois, tempo suficiente para que uma única célula gere outras trilhões, nós, meros mortais, somos então forçados a entrar de vez no mundo da luminosidade, do frio e da respiração pulmonar. De todas, essa seja talvez a mudança mais drástica pela qual passamos. É uma mudança de habitat, inclusive. A única. É como se fôssemos peixinhos boiando num saco d'água e alguém deixasse o saco cair no chão. E, até onde eu lembre, essa é a primeira vez que pulamos pra fora do ninho.

O tempo passa mais um pouquinho e, atendendo a uma demanda mundialmente aceita, temos que ser educados. Temos que viver de acordo com certas normas impostas por alguém que veio antes de nós. Temos que saber matemática, história nossa e dos outros, ciências e um catatal de coisas que, segundo papai e mamãe, vai nos fazer "alguém" na vida. E aí nos jogam em um local chamado escola para que lá possamos, no espaço de alguns anos, aprender tudo que a humanidade levou toda a sua existência para construir. É aí que pulamos do ninho de novo. Pulamos, sim, porque no ninho é bom que sempre tem comida quentinha, um local aconchegante para dormir e o conforto da asa de mainha pra nos acalentar. E na escola num tem nada disso. Ninguém - ou quase ninguém - tentar comer nosso fígado quando estamos no ninho. Mas aí você, por vezes, ter que sair do ninho. Se não, empurram-te. E se você não souber como sair do ninho, vai se esborracharembaixo. Ou, caso não se espatife por completo, ainda corre o risco de ser devorado pelos seres que vivem fora do ninho.

E é por isso que nós, seres humanos, temos sorte. E temos que agradecer por ela todos os dias. Algumas espécies de águia fazem ninhos tão alto nas montanhas que se os filhotes não aprenderem a voar no espaço de uma primavera com certeza se esborracharão bonito lá embaixo. Pior ainda são as garças: seus ninhos são contruídos em galhos que passam por sobre o leito de rios infestados de crocodilos famintos. Se o filhote pular do ninho e não souber fazê-lo, e se ele não morrer da queda ou afogado, talvez seja devorado por um crocodilozinho de seis ou sete metros. Isso, sim, é crueldade, não?! Malditas garças.

Mas voltando lá pra escola, vemos que o mundo é cheio de quedas altas e crocodilos famintos. Chegamos no colégio sem conhecer ninguém e morremos de chorar quando mamãe e sua asa acalentadora vão embora. É... estamos realmente fora do danado do ninho. Mas aí vamos crescendo. Chegamos a conhecer várias pessoas alí na mesma situação que nós e começa uma ajuda mútua. Porque elas estão fora dos ninhos delas e nós, do nosso. Aí esses a gente chama logo de amigo. E o tempo vai passando. Concluímos "escola" e passamos para o próximo nível: "faculdade". Essa é outra pulada do ninho que merece destaque. Começamos a ver que aquele negócio de ir pra escola pra ser alguém na vida tinha algum fundamento, muito embora já no primeiro dia de faculdade nos mandem esquecer tudo que a gente aprendeu no colégio. E mais quatro ou cinco anos se passam para a gente concluir o estágio "faculdade". Aqui num precisa nem se preocupar em pular; caso você não o faça, eles te empurram pra fora do ninho sem piedade, tal qual as garças.

E depois da faculdade vem um outro estágio, bem mais duradouro e interessante, chamado "o resto da sua vida". Aqui vão querer comer seu fígado, pisar em você, fazer você de presa, ludibriá-lo, enganá-lo, imbecilizá-lo, aliená-lo, emburrecê-lo e por aí afora vai. Você, por vezes, também vai querer comer um fígado e empurrar alguém pra fora do ninho. E você vai começar a ver que, mais cedo ou mais tarde, você vai ter que ter um ninho só seu. Não será mais necessário se arriscar tanto porque agora você aprendeu a voar, teve tempo suficiente. E vai ver que, de repente, aquele amigo lá de trás compartilha o ninho com você e que, quem sabe numa noite chuvosa, talvez numa tarde de verão, num momento de bobeira, vocês resolvem reviver toda essa história de ninho como espectadores e não mais como atores. E que um dia, quem sabe, você, mesmo depois de tanta coisa, vai precisar pular fora do ninho de novo, mesmo com toda aquela altura e todos aqueles crocodilos te esperando lá embaixo...


quarta-feira, 8 de julho de 2009

Sobra nada

Foi como a tempestade que chega
do nada, de repente
Veio varrendo tudo, derrubando casa
revirando terra, arrancando muro
Escondendo o doce de um raio de sol

Vão.

Raio que não tocou mais face alguma
Morreu na angústia da espera
Cerceado
Porque a tempestade levara, varrera
E o muito agora era nada

E com ela foram as raízes
Extraviadas, como mãos fracas saindo do túmulo
Pedindo, talvez clamando
pelo raio (doce) de sol
pelo raio vão

E com a tempestade também foram as lágrimas
que antes regavam o junco,
nutriam as raízes,
e refratavam o raio doce de sol

Que caminhava mundos só para transformar
Lágrima em pérola
Flor do girassol.


domingo, 5 de julho de 2009

Amar o vento

Quando me ensinaram a amar o vento
Esqueceram de me podar as asas,
Olvidaram a lembrança que cravada na pele
Arrepia em mim desejos.

Quando quis amar o vento
Fui dele antes de nele entrar
Pois o vento, como o amor, nos torna parte do todo,
Baila sem música,
Com braços agarrados à pele.

Quando, enfim, amei o vento;
Criei sonhos de levado menino
Esperando de prontidão n'alma
Até que os versos despertem
Numa manhã de fevereiro.



Alexandre Beanes



segunda-feira, 29 de junho de 2009

Super-poder: voar

O que? Impossível?
Pois eu fui lá e tirei uma foto só pra provar que não.


Nunca.











E nem tava tão frio.








Post Scriptum: Esse é o super-poder mais bacana de todos os tempos.


sábado, 13 de junho de 2009

Vida louca, vida

Vida: t'aí uma coisinha difícil de se definir. Filosoficamente, está no mesmo patamar de "tempo", de "amor", de "fé", que são aquelas coisas que todo mundo conhece, sabe o que é, mas é incapaz de definir precisamente. Ninguém sai por aí dizendo que tempo é isso, que amor é aquilo e que ter fé é ser assim ou assado. Nenhuma das definições vinculadas por aí, inclusive aquelas de dicionário, são satisfatórias. O Larousse, um dicionário que eu uso desde a quarta série, tem a ousadia de dizer que vida é uma característica própria aos seres vivos que possuem estruturas complexas, capazes de resistir a diversas modificações, aptos a renovar, por assimilação, seus elementos constitutivos, a crescer e a se reproduzir. Pfu!, grande pebice. Quer dizer, então, que seres que não possuem estruturas complexas, como vírus ou anêmonas, não possuem vida? É isso? Porque se for, eu rebaixo esse dicionário a peso de papel agora mesmo.

Mas a complicação não pára por aí. Viver, coisa que as pedras não fazem e as árvores fazem pela metade, é um privilégio de poucas entidades nessa imensidão de universo. E, realmente, quanto mais complexo o ser, mais cheia de atribulações é a sua vida. Nós seres humanos, por exemplo, vivemos o suficiente para descobrir que, embora finita, uma vida só às vezes não é o bastante. Talvez tenha sido baseado nessa frustração que um rapaz chamado Alan Kardec criou, há um bom tempo atrás, uma doutrina chamada espiritismo, que fala sobre outras vidas além desta atual. Ele devia ser muito puto com esse negócio de uma vida insuficiente e saiu por aí dizendo essas coisas. Ou não. Vai ver que isso foi só coincidência mesmo.

A questão é que o ato de viver nos causa uma vã ilusão. Nosso tempo passa de modo cíclico, sempre repetitivo. Vivemos um segundo agora, em seguida outro segundo. E depois já se foi um minuto, e outro minuto, uma hora, um dia. É tudo cíclico: as 12h do dia de hoje serão iguais às 12h do dia de amanhã e de depois de amanhã, até o fim dos tempos. Dias passam para que possamos viver os meses, um de cada vez. Do mesmo modo, os meses se somam para que os anos nos passem sempre da mesma forma, à sua maneira. Verão, Carnaval, Páscoa, férias, volta às aulas, provas, Natal, ano novo e assim por diante. Temos tudo para acreditar que a vida é um tremendo marasmo, altamente entediante, que não tem outro objetivo que não o de ser repetir nela mesma. Mas como já disse algum filósofo no passado, um rio nunca passa duas vezes no mesmo lugar, o que quer que isso signifique.

E nessa hora a ilusão de desfaz. Damo-nos conta, por exemplo, de que o nosso aniversário de hoje - aniversário porque é a data que, talvez, mais nos interesse em termos de significância - é totalmente diferente daquele comemorado ano passado. Entre o de hoje e o do ano passado, há uma latência temporal de trezentos e sessenta e cinco dias. Portanto, nesse meio tempo, tivemos, no mínimo, trezentos e sessenta e cinco oportunidades de tomarmos outro caminho ou, ainda, de permanecermos no mesmo caminho de sempre. Foram, logo, trezentos e sessenta e cinco escolhas e, depois de tantas, seria muita audácia dizer que ainda somos os mesmos. É só pensar um pouco nos seus interesses de dez anos atrás e nos de agora e ver que são pessoas completamente distintas.

Entretanto, mesmo fazendo todo esse raciocínio, não é possível dizer de modo acurado o que é vida. É fácil perceber, contudo, que mesmo com as coisas aparentemente se repetindo, elas nunca se repetem da mesma maneira. Amizades, conquistas, pendegas, amores, dificuldades, tudo acontece à sua maneira. E talvez seja isso que deixe a vida tão interessante. Chegar lá na frente, no "fim" de tudo e ver que os dias passaram da mesma forma, com suas manhãs, tardes e noites, mas foram vividos de forma totalmente ímpar. Um dia após o outro. E depois outro e outro. E ter certeza que, embora a gente não faça a mínima idéia do que a vida seja, ela valeu totalmente a pena.

E depois de tudo, eu pergunto: se não fosse assim, se a vida não fosse finita, se fôssemos verdadeiramente imortais, como você acha que seria sua vida? Hã?








Post Scriptum: A discussão ainda não terminou, viu?!


sexta-feira, 12 de junho de 2009

Bum!

Era o fim para Jorge. Recluso na sala da direção, a espera de alguém que nunca viria por ele. Por todo colégio agora o boato que rolava era o motivo pelo qual Jorge estava alí: tinha espancado um colega de turma, Matias. "Marginal", "criminoso" e "animal" era o que se escutava de mais brando pelos corredores. Jorge, agora sozinho, tornara-se o inimigo número um de todo colégio.

[Vinte e quatro horas antes]

Passava um pouco das seis da manhã. Jorge acabara de abrir os olhos e, ainda olhando para o teto, deu-se conta de que estava levemente atrasado. No ritual de sempre, levantou-se e foi ter seu banho matinal. Banho frio, "lavador da alma" como costumava pensar. Seu irmão mais novo, James, ainda dormia. Jorge o acordou carinhosamente, como costumava fazer toda manhã, para que ele também não se atrasasse para a aula. Sua mãe Filomena, a dona Filó, ainda estava na cama dormindo. Hipersônia era um efeito colateral comum dos quimioterápicos que dona Filó
tomava. Dona Filó tinha câncer de mama em estágio avançado. Seu pai... bem, digamos que "pai" era uma palavra que Jorge conhecia apenas do dicionário. Saiu de casa quando Eleonor, enfermeira que cuidava da sua mãe, vinha chegando.

Jorge estava terminando o colegial. Pretendia com muito orgulho se tornar enfermeiro. Compadecia-se enormemente com pessoas em necessidade e, achava, a vida de enfermeiro permitira que ele ajudasse um infinidade de pessoas. Namorava com uma garota chamada Rebeca, ou Beca para os íntimos, e, embora o relacionamento tivesse passado por alguns momentos difíceis, os dois estavam em uma fase boa. Seu melhor amigo era Fred, franzino e pouquinho, com o qual Jorge compartilhava idéias e gosto afins. A amizade de longa data começou quando Jorge entrou em uma briga para proteger Fred, que estava sendo esmurrado por um garoto bem maior que ele, um tal de Matias. A partir desse dia, Jorge e Fred tornaram-se bons amigos. Matias, por sua vez, não viu essa amizade com bons olhos.

Matias era a típica figura dominadora da escola. Com porte avantajado, nascido em berço privilegiado e com um histórico de excesso de regalias desde a infância, não tinha muito apreço por leis ou regras. Achava-se acima delas e, por isso, era constante motivo de problemas para os pais e para a coordenação do colégio. Tinha seu grupinho de amigos e amigas, que, dentro do colégio, era conhecido como "os playboys e as patricinhas". Nada de incomum. Nada.

Mas o dia de Jorge estava apenas começando. O fato de aquela sexta-feira não ter nada aparentemente de anormal era apenas uma impressão. De cara, logo ao entrar no prédio do colégio, Jorge esbarra com Matias, que, como de praxe, solta piadinhas provocativas e que tem graça apenas para eles e os da sua "gangue". Seguindo o corredor, percebe um aglomerado de alunos em volta do quadro de avisos. "Sairam as notas finais", escutou alguém dizendo. Com alguma dificuldade, espremendo-se em meio á multidão, Jorge consegue chegar a uma distância visualmente viável e percebe, para seu desgosto, que ficara em recuperação em matemática, matéria essa que não era lá uma de suas preferidas. Os últimos meses cuidando da sua mãe debilitada e do pequeno James tinham roubado o tempo antes reservado aos estudos. Tomado de uma leve pontada de desapontamento, Jorge foi para sala assistir as aulas daquele dia. Não conseguia tirar da cabeça aquela nota baixa. Ficava se lamentando. As aulas agora tinham duração infinita.

No final do quinto horário, entretanto, aconteceu algo que quebrou a monotonia. Seu telefone toca. Era da sua casa. "Mamãe", pensou. Pedindo licença ao professor, saiu da sala e retornou a ligação. Eleonor atendeu e de pronto passou o recado:

- Jorginho, é sobre sua mãe. - disse - Ela teve uma convulsão e foi levada para o hospital. Eu liguei para a ambulância e eles acabaram de levá-la. Estou indo para lá agora mesmo. Assim que puder, pegue James e vá também! - e desligou.

Jorge não conseguiu falar nada. Imediatamente lembrou do irmão e foi ao seu encontro. Nessa mesma hora, tocava para o fim da aula. O corredor logo viraria uma algazarra. Apressou o passo. Virando a esquina que dava acesso ao prédio infantil, avistou Beca, dando-se conta de que era a primeira vez que a via naquele dia.

- Beca, preciso dizer uma coisa. Minha mã... - mas ela, com a face tensa, interrompeu-o.

- Pera, Jorge. Eu preciso dizer uma coisa antes, uma coisa mais importante. - e parou por um momento, olhando para lugar nenhum. - Não como dizê-lo, mas o farei mesmo assim: não quero mais. - o levantou o olhos para Jorge.

- Mas... er... hã? - balbuciou Jorge, meio que sem saber o que se passava pela sua cabeça.

- Não quero mais. Quero terminar. Não gosto mais de você, a gente não dá mais certo. Na verdade - e, nessa hora, Beca suspirou - estou com outro há algum tempo. Espero que você entenda... Não quero confusão.

E saiu, deixando Jorge com a sensação de ter parado um míssil com o peito. O seu cérebro agora estava frenético, mas, mesmo assim, não poderia ficar alí. Continuo seu caminho na direção do irmão. Tinha de encontrá-lo.

Chegando na sala, olhou pelo vidro da janela e viu James colorindo um papel contentemente, alheio ao que estava por vir. Pediu permissão à professora e tirou o irmão da sala. "É algo muito urgente, professora", dissera à professora do pequeno James. Fora da sala, ajoelhado na frente do irmão e segurando suas mãos, olhou nos seus olhos e começou:

- James, a gente vai ter que ir embora agora. - e percebeu que os do irmão olhos começavam a marejar. - Mamãe teve um probleminha e foi para o hospital. A gente vai se encontrar com ela, ok?

O fato de falar na mãe, contudo, foi suficiente para fazer escorrer pelos olhos do pequenino lágrimas sem qualquer objetivo. Ele ficou lá, olhando para Jorge e lavando o pequeno rosto com as lágrimas que escorriam. Jorge abraçou-o enquanto a multidão começava a passar pelo corredor. Os dois ficaram alí. Passando em meio a multidão, Matias percebeu a cena e não perdeu a oportunidade de se aproximar. Olhou para Jorge e James alí e falou algo que o faria se arrepender pelos próximos trinta minutos.

- Que bonitinho. Quer dizer que agora que você não tem mais namorada, decidiu dar em cima do próprio irmão... - falou com o ar mais zombeteiro possível.

Escutando aquilo, veio á cabeça de Jorge a imagem de Beca novamente. E depois da mãe, e do irmão, e de Matias. Nessa hora, Jorge soltou o irmão, levantou-se e, sem enxergar direito o que fazia, explodiu seu punho direito contra a face do playboy, que foi ao chão. Depois veio o punho esquerdo, e o direito, em uma sucessão de golpes direcionados para o nariz, boca e bochechas de Matias. A multidão abriu uma roda e, aparentemente, estava gostando do espetáculo. Matias estava quase inconsciente quando alguns garotos apartaram os dois, segundos antes dos coordenadores chegarem. Matias foi levado às pressas à enfermaria. Jorge, ao som de protestos,
foi encaminhado à sala do diretor.

Tinha explodido. Mas isso era algo que ninguém iria entender. Ninguém.



segunda-feira, 27 de abril de 2009

Fato

Às vezes, quando você está triste, ninguém nota seu sofrimento.
Às vezes, quando você chora, ninguém percebe suas lágrimas.
Às vezes, quando você está contente, ninguém contempla seu sorriso.














Agora experimente peidar apenas uma vez.
Só uma vez.


quinta-feira, 5 de março de 2009

Ritual

De volta ao batente.


Os Maori são uma tribo nativa da Nova Zelândia, mundialmente conhecidos como aborígenes após a colonização de seu território por exploradores europeus. Como toda tribo digna, os Maori
possuíam uma diversidade de rituais, sendo o "Moko", talvez, o mais difundido. Moko era o nome dado ao ritual de tatuar a face, coisa que, dentro da tribo, chegava a designar status e posição social. Para um homem Maori, quanto mais tatuada a face, maior o seu grau de nobreza. Guerreiros mortos em batalha tinham suas cabeças decepadas e guardadas em urnas sagradas, tornando-se, mais tarde, objetos de grande cobiça por parte dos colecionadores.

E a lista de rituais não parava por aí. Embora fosse uma tribo firmemente organizada em torno de padrões hierárquicos complexos para a época, os Maori também possuíam hábitos ultrapassados para o seu tempo. Um deles era o ritual da "Kakunia", na qual toda criança que nascesse com algum problema congênito seria abandonada à própria sorte, quase sempre morrendo de inanição ou sendo devorada por algum predador. Era a forma vista por eles de purificar a tribo de qualquer mal que pudesse acometê-los.

Zamuth e Zethen eram irmãos gêmeos, nascidos e criados sobre a doutrina Maori. Zamuth, o primeiro a nascer, veio ao mundo maior e mais pesado que o normal, sinal de extremo vigor na concepção da tribo. Zethen, mais franzino e frágil que Zamuth, já não deixou a mesma impressão. Assim que nasciam, todas as crianças eram levadas para serem inspecionadas pelo Pajé. Zamuth, como era de se esperar, impressionou pelo tamanho e força. Zethen, entretanto, não teve a mesma felicidade. Após a visita ao Pajé, a mãe ficou sabendo que Zethen possuía um defeito mortal no "tanuoh", que, na língua deles, quer dizer coração. Assim, o destino de Zethen estava traçado. Algum familiar deveria levá-lo às pradarias e deixá-lo lá, envolto num pano, conhecido como "theru", e sobre o qual se depositaria um ramo de aroeira.

Entretanto, contrariando o rito sagrado, a mãe resolveu criar ambos os filhos, escondendo do resto da tribo a morbidade de Zethen. A assim foi feito. A muita custa, as crianças cresceram, cada uma na sua individualidade, até completarem vinte e um anos. Zamuth cresceu com todo o vigor que já lhe era peculiar ao nascimento. Tornou-se um homem imponente e altivo. Zethen, sob todos os cuidados da mãe, não apresentava lá a mesma energia do irmão, mas também não tinha um ar tão doente.

Vinte e um anos se passaram sem que Zethen despertasse nenhuma suspeita. Nem mesmo Zamuth era ciente da moléstia do irmão. Foi quando então, um dia, por intermédio da curandeira da tribo, que havia ido à casa dos garotos para tratar uma ferida na perna de Zethen e escutara a mãe falando com a irmã sobre o filho doente, que o Pajé soube que aquele garoto de vinte e um anos atrás ainda estava vivo. Logo houve comoção por toda a tribo. Um ritual de milhares de anos havia sido quebrado e alguém ia pagar por isso. No centro da vila reuniram-se os aldeões de maior patente a fim de decidir o que seria feito. A mãe, tida como a grande transgressora, deveria ser julgada de acordo. Após longa discussão, ficou-se decidido que Zethen deveria ser expulso da vila e sua mãe, sacrificada. Houve nova comoção. Vendo tudo, o próprio Zethen resolveu entrar em cena.

- Eu não entendo. Eu passei vinte e um anos da minha vida vivendo às escuras sem ninguém saber de nada. Não creio que meu problema deva ser motivo de tanta balbúrdia. - disse o jovem.

- Você conhece o ritual, Zethen. Assim como sua mãe. Jamais foi permitido que tamanho absurdo fosse tolerado. Vivemos há milhares de anos em harmonia por causa do modo como sempre fomos. - retrucou o Pajé, inflexível.

- Pois bem. Proponho um acordo. Vou provar a todos que eu sou tão capaz quanto... quanto...

Nesse momento, Zethen parou. Um filme passava pela sua cabeça. Todos aqueles anos vistos num átimo de segundo.

- Vou provar a todos que sou tão capaz quanto meu irmão. - finalizou.

A balbúrdia aumentou. Ouviam-se gritos e sussurros.

- E como você pretende fazer isso? - indagou o Pajé, curioso.

- Vamos nadar mar adentro. Aquele que conseguir nada para mais longe da costa será considerado o mais apto. Se eu conseguir, exijo o direito de permanecer na tribo e quero que minha mãe seja poupada. Do contrário, eu mesmo pularei do precipício.

O silêncio que se seguiu pareceu ter durante uma eternidade. O Pajé sentiu-se tentado a ver o desenrolar daquilo e aceitou o desafio. Sabia qual seria o resultado inevitável. Todos sabiam. Ver Zethen pulando do alto da Grande Montanha eximiria-lhes da culpa. E assim sendo, todos foram para casa, para se preparar para o dia seguinte.

Na manhã que veio, todos estavam à beira do mar. Os irmãos estavam ladeados e não trocavam olhares ou palavras. Antes de autorizar o início do ato, o Pajé foi ter com Zethen.

- Espero que você saiba o que está fazendo. Ninguém irá te salvar se você se afogar. Nem mesmo o seu irmão. - disse o Pajé.

Zethen, contudo, permanecia impávido, concentrado na vista que tinha do oceano. Nunca tinha visto por aquele ângulo. Sua beleza era indescritível. Contemplou o horizonte, o sol nascente e estava a observar uma gaivota solitária quando o Pajé gritou, autorizando a contenda. Os dois irmãos mal correram para a água e já estavam nadando. Ambos davam tudo de si. Zamuth, de início, conseguiu abrir notável vantagem, fazendo o Pajé sorrir sorrateiramente. Zethen, indisposto a desistir, dava tudo que podia. Já tinham vencido a linha de arrebentação da praia e agora nadavam em direção ao alto-mar. O público postado na praia observava os dois irmãos virarem pontinhos no horizonte. Logo tudo estaria acabado. Logo todos voltariam para casa sem nenhuma surpresa.

Após nadarem mais de um quilômetro e meio, Zamuth começava a sentir o cansaço tomar conta do seu corpo. Foi diminuindo o ritmo paulatinamente até parar na água. Olhou para trás, em direção à praia, e já não conseguia divisar a costa. Percebeu logo após que também não havia sinal do seu irmão. Apavorado, começou a gritar pelo seu nome sem obter resposta. O irmão havia se afogado. Lágrimas escorriam pela sua face. Voltou para a praia com o maior pesar do mundo no coração. Saiu da água e se ajoelhou na areia, pedindo desculpas à mãe por não ter salvado o irmão enquanto pôde. Todas as atenções estavam em Zamuth. O Pajé agora possuía um ar de contentamento, exatamente aquele de alguém que aprecia um fato já esperado. Acabara de dar as costas para voltar à vila quando algo aconteceu. Um grito... e alguém vinha saindo de dentro d'água.

Era Zethen com certeza. Não parecia cansado. Tinha no rosto um traço sereno e firme. Ajoelhou-se ao lado do irmão sem que esse pudesse vê-lo. Ao se virar, Zamuth teve uma enorme surpresa e mais lágrimas irromperam face abaixo. Zethen colocou a mão em seu ombro.

- Pensei que você tivesse se afogado. - falava Zamuth atropeladamente. - Olhei para trás e não te vi.

- E porque eu estava à sua frente, irmão. Te ultrapassei sem que você tivesse me visto. - falou Zethen calmamente.

- À minha frente?! Então você conseguiu, irmão! Você foi mais longe.

Zamuth estava animado com o ocorrido. Enfim, o irmão poderia ficar.

- Mas se você estava à minha frente, por que não parou e me avisou para voltarmos?

- Não estava nadando para voltar, irmão.


[ "You take the blue pill and the story ends. You wake in your bed and believe whatever you want to believe. You take the red pill and you stay in Wonderland, and I show you how deep the rabbit-hole goes... Remember: all I am offering is the truth, nothing more." ]

Quando a gente acredita, a gente pode fazer chover...