segunda-feira, 28 de maio de 2012

Inércia

O menino passou a vida toda dando "tapa" na sua cara, preterindo você em relação a tudo e você aí indo atrás feito um cachorrinho, como se a culpa fosse sua. Seu chefe, PhD em assédio moral, colocando na sua bunda sem pena nem cuspe e você ainda balança a cabeça e diz "sim, senhor". Corrupção e estupidez rolando soltas ao seu redor e você aí, fingindo que não é com você.

Num tá na hora de fazer alguma coisa, não?
O único que eu vi se dar bem com esse negócio de inércia foi aquele bloquinho no plano inclinado das aulas de física.


segunda-feira, 14 de maio de 2012

Sigh*

*

Sêu Francisco de Alguma Coisa. Não lembro ao certo, mas era um dos muitos franciscos Brasil afora. Chegou ao ambulatório por causa de pressão alta ou algo assim. Também não recordo. Devia ter seus cinqüenta e poucos anos e, se não me engano, era pedreiro. Ou agricultor. Não lembro precisamente, mas quase sempre é assim: ou pedreiro ou agricultor. A anamnese está péssima, mas nem importa muito. O que chamou minha atenção era que, fosse porque fosse, sêu Francisco não era muito dado ao riso. Para ser sincero, era monossilábico quase sempre. Olhava para os pés e mexia com os dedos como se estivesse esperando o tempo passar.

Reclamou de coisas vagas. O fato de não se prolongar no discurso atrapalhava muito. Tentando amenizar, pedi que sentasse na maca para que eu pudesse examiná-lo. Levantou, sentou e tirou a camisa sem olhar para mim. Obedeceu aos meus comandos sem questionar. Pedi que abrisse a boca. Ele relutou e olhou para mim. Não entendi e repeti o comando. Ele hesitou de novo, mas cedeu. A boca mal cuidada e os poucos dentes remanescentes em péssimo estado me fizeram entender. Pedi que fechasse a boca e continuei como se nada tivesse acontecido.

- Não precisa ter vergonha, sêu Francisco - disse, tentando fazer com que ele ficasse relaxado.

Quase que imediatamente, seus olhos semi-cerraram e lágrimas começaram a escorrer pelas bochechas. Percebi que, na minha tentativa de deixá-lo confortável, acabei piorando a situação. Rapidamente fiquei sem ter o que dizer, num clima daqueles de velório. Timidamente, enxuguei suas lágrimas tentando imaginar o que se passava com aquele homem. Peguei-me pensando que ter vergonha da boca e dos dentes era algo que jamais me ocorrera. Uma frescura até. Logo me dei conta, entretanto, que nunca me faltaram escova e pasta-de-dente, banheiro, água e informação para saber que dente é importante, que diz muito sobre você. Por isso, aquele choro fez sentido. Por isso também que aquele choro começou a me "dizer" um monte de coisa.

A lição que fica é que na tentativa de ajudar você vai acabar, eventualmente, atrapalhando. E isso vai tirar um pouco da sua auto-estima. Mas não se preocupe: a culpa não vai ser sua. Você não tem como saber.


[ "You take the blue pill and the story ends. You wake in your bed and believe whatever you want to believe. You take the red pill and you stay in Wonderland, and I show you how deep the rabbit-hole goes... Remember: all I am offering is the truth, nothing more." ]

Quando a gente acredita, a gente pode fazer chover...