terça-feira, 29 de março de 2011

Querer

Sabe quando a gente quer muito uma coisa?

Muito ao ponto de não dormir, de não conseguir domar o pensamento que insiste em sempre pensar naquilo, em ir e voltar pr'aquilo. A gente até começa a se concentrar em alguma coisa, mas quando menos percebemos estamos com aquilo na cabeça. E nem sabemos o caminho que o pensamento fez até chegar lá: ele simplesmente chega. Quando a gente quer muito a ponto de não notar o tempo passando porque a nossa atenção está toda voltada para a coisa em si. Fazemos as tarefas diárias completamente no modo automático - tomar banho, comer, dirigir, andar, escrever, falar. Chegamos a querer de tal modo que fantasiamos várias conjunturas nas quais o desfecho envolve conseguir - ou não - a coisa pretendida. Queremos a ponto desse querer invadir subitamente nosso ser na horas mais impróprias - como na apresentação de um trabalho ou na ministração de uma palestra. Não sei se você entende o que quero dizer, a intensidade do que quero exprimir. É um querer muito forte, daqueles de mover uma montanha.

Sabe?
Sabe como é?

É quando a gente quer muito, muito mesmo. Muitíssimo, eu diria. Tanto, mas tanto que corremos o risco de não saber o que fazer com a coisa na hora que a conseguirmos. Tanto que, quando conseguimos, pode ser que aquela coisa nem pareça mais tão digna do nosso imenso querer.


segunda-feira, 14 de março de 2011

Desabafo

Há de se ter sempre a cabeça a frente de tudo, no controle, dando cabo das rédeas.
Isso ou pagaremos um fardo desagradável por perder esse controle.

Seria como se marchássemos para uma guerra sem munição;
Jogássemos fora a chave que destranca a fechadura da prisão;
Ou déssemos as rédeas àquilo que bate no peito.


Tem que ser monge.
E por isso que é foda.


domingo, 13 de março de 2011

Coração de pedra

- Quem é aquela?
- Aquela? Juju. Por que?
- Nossa! Nunca tinha visto ela por aqui antes. Ela é linda...
- Ela estuda no outro andar... E não me parece ser essas coisas todas que todo mundo diz.
- Não ponha sua inveja de mulher no meio da conversa.
- Não é inveja, apenas não acho. É minha opinião.
- ...
- E pare de ficar olhando desse jeito! Ela não é para o seu bico.
- Não é você quem decide... Felizmente. Quem sabe se eu for lá...
- Não perca seu tempo. Não que você não seja interessante, mas ela não vai querer.
- Como você sabe?
- Eu sei.
- ?
- Dizem por aí que ela andou namorando alguns otários. Depois de levar tanta porrada, resolveu que seria melhor se tivesse um coração de pedra.
- Sério...?
- É. E ela vai ter dispensar sem sequer escutar o que você tem a dizer. Eu já vi... Ei, onde você vai?
- Pera aqui.

(Longe, conversando com o zelador, que entrega duas ferramentas)

- O que diabo é isso?
- Um martelo e um cinzel.
- E o que você pensa em fazer com isso?
- Vou lá conversar com ela.


quinta-feira, 10 de março de 2011

Slo-mo

Eram muitos frames em cada segundo. Muitos. Cada piscada de olho durava o tempo de um bocejo. As roupas faziam dobras artísticas feito ondas num mar de seda. Corpos estavam em pleno ar como que mimetizando marionetes. E chovia. Chovia muito. A sensação de ver cada gota de chuva se desintegrando ao se chocar com tudo era indescritível. Os cabelos molhados deixavam tiras d'água em pleno ar. Os sorrisos pareciam eternos - e o eram. Eu estava fora da minha rotina completamente.

E foi lindo.








Post Scriptum: Maldita rotina - sempre trazendo de volta aquela sensação de testada-na-parede. Sempre.


quarta-feira, 2 de março de 2011

Hipocondria

É um remédio estranho.

Já na primeira semana de administração, muita gente chega com queixa de sensações do tipo "uma coisa aqui dentro" ou "uma vontade de sei-lá", o que dificulta enormemente a avaliação prognóstica. Por vezes, muitos pacientes vêm com aquela face ababacada típica do portador de distúrbio cognitivo leve - riso sardônico, olhar vago e perdido no horizonte, atenção sem foco e tenacidade e uma alteração epigástrica comumente descrita como "borboletas no estômago". A medida que o tratamento vai cronificando vão aparecendo efeitos colaterais mais evidentes, como palpitação, sudorese fria, mãos pegajosas, taquidispnéia, discreta pirose, disautonomia, escotomas visuais, boca seca, taquicardia, plenitude pós-prandial, exantema maculopapular, obstipação, lipotímia, afonia, hiporreflexia e tetania. Nos casos mais graves pode ocorrer amaurose, síndrome do intestino irritável e até dependência química, que é a complicação mais temida. Em qualquer outro paciente portador de doença crônica, isso seria péssimo. Mesmo.

Além de tudo isso, não constam nos anais médicos nenhuma evidência de ensaios randomizados duplo-cegos comprovando sua eficácia. É uma droga que foi consagrada pelo uso e pelo tempo, ou seja, a gente usa, mas não sabe pra quê serve. Por causa disso, a ANVISA proibiu sua administração em ambiente intra-hospitalar e a comercialização mesmo mediante prescrição médica. Vai ver morreu alguém por causa de uma overdose, sei lá. Dizem que as drogas dessa classe podem até induzir o suicídio. Vai saber...




(Rolou um boato pela enfermaria que um farmaceuticozinho de fundo-de-quintal manipulou o princípio ativo e transformou o comprimido na mais nova sensação das casas noturnas. E tá fazendo o maior sucesso. Estão chamando por aí de pílula do amor...)








Post Scriptum: Tem gente que adooooooora texto assim =P


[ "You take the blue pill and the story ends. You wake in your bed and believe whatever you want to believe. You take the red pill and you stay in Wonderland, and I show you how deep the rabbit-hole goes... Remember: all I am offering is the truth, nothing more." ]

Quando a gente acredita, a gente pode fazer chover...