segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Fazer chover - parte 3

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Já era meados de Junho. Um pouco antes do meio do ano. A ira continuava, juntamente com a crescente falta de saco de ter que fazer tudo metodicamente de novo. Muitos eram os amigos que davam aquela tapinha no ombro, encorajando e dizendo que "a sua hora vai chegar". Muitos também eram os sorrisos falsos, frios e meio amarelados quando o garotinho escutava isso. Mas ele ia. Tinha que ir. Vagarosa e morosamente, mas ia.

E, justamente naquele momento que a gente menos espera e mais precisa, como já é de acontecer por aí afora, chega alguém e mete a mão no tabuleiro, e muda tudo. Sem fazer muita coisa, diga-se de passagem. Na verdade, não teria tido a importância que teve se fosse em outro momento qualquer. Veio exatamente na hora que deveria, com pontualidade britânica. Justamente no momento que a raiva, a frustração e a desorientação se misturavam em algo deveras explosivo, o garotinho recebeu a ligação de uma amiga há muito "desaparecida". E ela começou dizendo aquelas coisas da hora chegando, de não desistir, de fazer tudo direitinho, de sorrir e tralálá. Ele respondia monossilabicamente, com o mesmo sorriso amarelo de outrora. Ela, super-heróina nata, não esmorecia, falando com o mesmo tom afável e aveludado, com aquele carisma, aquela preocupação, aquela determinação, como que prevendo o que aquilo iria ser dalí pro resto dos meus humildes dias.

E, então, quando parecia que aquela conversa não iria me acrescentar nada de novo, ela virou e disse que ia embora, mas não sem antes dizer "uma última coisinha", segundo ela mesma: "Se você realmente acredita que vai conseguir, você vai! Acreditar é o primeiro passo, independente de como tudo aconteça. Porque, às vezes, quando a gente acredita, a gente pode até fazer chover...". Dessa vez eu realmente não respondi. Não que eu não quisesse. Ela, meio que entendendo tudo, apenas deu tchau e disse que eu era um amigo lindo. A ligação caiu. O silêncio continuou.

O garotinho passou alguns dias pensando sobre aquilo. Cada vez menos, por ter muito com que ocupar a mente. Pode-se dizer até que, de início, não teve grande impacto ou importância. Caiu no esquecimento. Até que a monotonia e o desgosto começaram a querer tomar conta de tudo de novo. E vinham piores do que antes. Daí, numa fatídica quarta-feira, após uma aula extenuante de física, deu aquela vontade de desaparecer pra sempre, de jogar tudo fora, quebrar tudo. O garotinho pegou o ônibus e não foi pra casa. Não sabia pra onde estava indo no começo. Foi sendo levado pela vontade alheia. Queria ficar sozinho e não pensar em absolutamente nada. Nada. E, numa das inúmeras paradas do ônibus de número 46, ele viu o mar. Não achou grande coisa, mas teve vontade de descer e caminhar por alí. Desceu.

Desceu também a rua pavimentada, contando bloco de pedra por bloco de pedra. Pisava nelas como se estivesse atravessando um abismo. A rua ficava cada vez menos iluminada. Não atentou pra esses detalhes na hora. Até que, do nada, surgiu um gramado. Como um camarote, virava-se de frente para o mar, dando uma vista privilegiada. Mas o mar nem importava tanto. O garotinho resolveu sentar alí, por ser aquele um canto solitário o suficiente. Queria ficar "sei lá". Sentou, colocou de lado a apostila, limpou o óculos na camisa... e, quando estava para colocá-lo novamente no rosto, ele percebeu uma gota escorrendo pela lente. Com raiva, limpou-o de novo. Novamente, no trajeto para a cara, outra gota. E outra, e outra, e outra. Olhou pra cima e, agora, as gotas caíam no seu olho, na sua boca, no nariz, na fronte. Começou a chover. Pode parecer mentira, mas chovia mesmo [Junho estava chegando e com ele vinha o inverno. E com o inverno vinha outra coisa que fez mudar tudo, fez lavar tudo: as chuvas. É... as chuvas...]. Estávamos em pleno inverno. De imediato, milhares de vezes mais rápido que a velocidade da luz, ele lembrou-se da única coisa que deveria lembrar naquela hora. E entendeu. Não completamente, mas entendeu. Pela primeira vez no ano, talvez, ele deu um sorriso sarcástico e irônico, daqueles que retraem um lado do rosto. A água lavava tudo. O rosto, os óculos, a roupa, os ânimos. A apostila, então...

Ligou para um amigo-do-peito e disse que queria sua companhia para voltar pra casa. E voltou e volta mais entusiasmada de sua vida. Porque as voltas são sempre tristes, né?! E a partir daquele dia tudo mudou... de novo. Passou a não se preocupar demais com nada. "Sua hora vai chegar", dizia aquela vozinha no fundo da sua nuca. Sorrisos sarcásticos tomaram o lugar dos amarelos. E logo os sorrisos viraram as tão esquecidas gargalhadas. Ah, as gargalhadas... Elas, que sempre tiverem o poder de se propagar rápido demais, arrancando outras gargalhadas de outros rostos, estavam de volta. E a segunda metade do ano foi passando da uma forma assaz aprazível. Não havia mais raiva, frustração, descontentamento. Havia apenas o senso de cumprir o dever e caminhar sempre naquela mesmo direção. Ainda meio solitário, é verdade, mas caminhando. Apenas o fim do inverno e, por conseguinte, das chuvas causou uma certa tristeza. Mas chuva vem e vai todo ano. Nada demais.

Chegara finalmente o dia vinte e sete de dezembro de 2005, um domingo. O mais aguardado do ano. O garotinho chegou e foi logo vendo milhões de pessoas que se amontoavam na escadinha que dava acesso à entrada do local de prova. Sem muita delonga, sentou-se solitariamente num banquinho da pracinha em frente e ficou observando o redor. Pessoas olhando folhas, colas, mexendo nos bolsos. Logo chegaram alguns amigos. Faltavam quarenta e cinco minutos para as oito horas da manhã quando os portões se abriram. 95% das pessoas correram para dentro, como se fossem decidir suas vidas naquele momento. Os 5% restantes lá fora eram apenas o garotinho e seus quatro ou cinco amigos. Faltando cinco minutos para fechar o portão, o que ocorria exatamente às oito horas e cinqüenta minutos, os 5% entraram. O garotinho entrou vagarosamente, procurando sua sala. Encontrou. Enquanto o fiscal conferia seu nome, ele analisava o interior do recinto. Pessoas com aparência tensa, sisuda e hesitante. "Pode entrar", disse o fiscal, e ele se dirigiu para sua cadeira, a segunda da primeira fila, para descobrir que ela era pequena demais pra ele. Mais uma vez, quis vir a gargalhada. Mas agora não podia. Tinha que fazer silêncio. Ficaram, ele e a cadeira, apenas no sorrisinho irônico. E assim foi por mais três dias. No último, o garotinho tirou um peso das costas tamanho, que foi quando, então, ele aprendeu a voar.

E, aproximadamente 1 mês depois, ele, em meio a sua própria descrença e contentamento, descrobriu que vencera. Depois de tudo, absolutamente tudo, ele vencera. Lembrou incessantemente de várias coisas naquela hora. Mas uma ficou por mais tempo ressoando em sua cabeça: a gota escorrendo pela lente do óculos. Glória finalmente tinha resolvido visitá-lo. Podia dizer aqui que ela veio com um ano de atraso. Mas não. Não, não, não. Ela veio exatamente na hora que ela tinha que vir, como todas as coisas na vida, para que o garotinho aprendesse exatamente o que ele deveria aprender. É assim que funciona.

Obviamente era o momento mais feliz de todos os tempos. E, de tudo que passou, apenas uma coisa deu saudade. Uma. E adivinha o que era? É... a chuva. A chuva.

[ FIM ]







Post Scriptum 1: Essa história nunca é contada em vão. Ela sempre - SEMPRE - tem um propósito.

Post Scriptum 2: Obrigado por tudo, Cacá.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

As duas coisas da vida

De novo, é tudo culpa da semiologia. Pra quem não sabe, semiologia é uma matéria, deveras conhecida na área biomédica, que tem por finalidade elucidar o entendimento de sinais e sintomas apresentados por um enfermo qualquer, bem como a forma mais adequada de abordá-lo. A gente realmente aprende, por exemplo, a ser um médico de futuro. Ou enfermeira, sei lá. Enfim, o que importa é que essa disciplina tem afetado minha vida de várias maneiras, indo desde o modo de falar ou olhar pra alguém até a maneira de se vestir. O mais impressionante de tudo são as coisas que aqui-aculá eu escuto. Coisas como a de hoje.

Dr. Francisco de Assis de Lima, vulgarmente conhecido como "Dr. Chiquinho" por motivos óbvios, é um dos professores mais famosos dessa disciplina. Deve ter começado a lecioná-la muito antes d'eu nascer, e ainda continua lá até hoje, imortalizando-se a cada dia que passa. Dr. Chiquinho é um daqueles velhinhos atarracados, com aparência sisuda e troculenta, que nos faz lembrar algum pertencente do alto escalão do Exército. Tem, como sinal patognomônico, o inteligente hábito de, de vez em quando, falar uma frase de efeito, daquelas que você nunca escutou em lugar nenhum. Hoje não foi diferente. Em meio a uma bonita explicação sobre adolescência, ele disse algo que fez aparecer instantaneamente aquele silêncio reflexivo típico: "Todo e qualquer adolescente normal de dezoito anos, com um plano de vida sólido e coerente, deve crescer para fazer duas, e apenas duas coisas na vida: trabalhar e amar. Trabalhar e amar". Agora é a hora que você reflete. Vá, eu espero...

Trabalhar. Conheço poucas atividades que, quando desempenhadas com prazer, sejam tão lúdicas quanto o trabalho. Namorar talvez seja uma delas. Viajar também. Mas é porque o trabalho tem aquele sentimento de "sentir-se útil", de fazer algo em prol de alguma coisa que, por vezes, você num faz a mínima idéia do que seja. Há um tempinho atrás, enquanto voltava de uma farra, conheci um taxista que quase me fez desistir da medicina pra dirigir táxi também. O jeito como ele falava daquela vida que ele levava há uns vinte anos era de encher os olhos de lágrimas. Cheia de aventura, suspense e muito pano pra manga. Fico impressionado também quando, saindo pra aula, às 06:30 da manhã, vejo o jardineiro daqui do prédio todo sorridente, tratando as rosas como se fossem belíssimas mulheres. Nessas horas, eu me acho um bosta. Quem sou eu pra acordar de mau-humor daquele jeito? Eu realmente sou um bosta. Mas inspiro-me em todos os jardineiros, taxistas, cobradores e tantos outros que, em meio a tanta dificuldade, trabalham com aquele sorriso orelha-a-orelha.

Amar. Eu podia terminar o post aqui. Duvido que exista, na língua dos homens, palavra mais autoexplicativa que essa. Mas não, não posso deixar de dar meu parecer sobre isso. Porque esse amor, segundo o glorioso Dr. Chiquinho, não é só aquele amor que a gente sente por alguém, aquele que usa drogas. Não, não. Você tem que amar tudo, principalmente aquilo que é seu. Ame seu trabalho, ame sua casa, sua mulher, seus filhos, seu cachorro, seu salário. Ame seu carro, sua cama, seu chefe, ame seu corpo. Ame cada um dos seus problemas. Serão eles que te farão crescer. Ame as estrelas, porque lá em cima tem uma que é só sua. Ame as primeiras horas do dia. Nunca se sabe quando um jardineiro te acordará com um sorriso que vai mudar seu dia. Ame também as últimas, pois são nelas que os taxistas mais trabalham, esperando alguém que escute todas as suas histórias fantásticas. Ame seus amigos, ame a natureza, ame a sua profissão. Ame os passarinhos. Todos eles. E, em meio a tanto amor, não esqueça de amar aquele sem o qual todo esse amor perderia a razão de ser: você.

Nessas aulas que eu vejo que ser médico vai valer a pena. Dá um trabalho do caralho, mas valerá a pena. Pena que as aulas de semiologia sempre terminam cedo demais. Sempre.


domingo, 2 de setembro de 2007

Nunca se sabe

Imprevisibilidade. T'aí uma coisinha da vida que eu acho interessante, muito interessante. É algo que a gente não liga muito, que passa despretensiosamente, mas que nos motiva a fazer certas coisas, que nos encoraja, instiga e, por vezes, põe nossa racionalidade a prova. Lembro-me bem da primeira vez que eu atentei para isso de modo mais introspectivo: olhava estaticamente para uma vela, imaginando que sua chama fosse minha vida. Mas nada do que conseguisse conjurar naquela hora seria decisivo, certo ou esperado. Isso porque simplesmente é imprevisível. Não temos esse poder de descobrir acertadamente o que nos virá no próximo segundo. E se tivéssemos, tudo perderia a graça. Pode ter certeza. Aspirantes à vidente morreriam de fome, se dependessem de mim. Eles não sabem o que dizem. Já um cara alí, chamado Heisenberg, tornou-se famoso por criar um princípio baseando-se exatamente na imprevisibilidade das coisas. Rapaz esperto, ele.

É o suspense e o fato de não saber o que vai acontecer que deixam as coisas mais interessantes. Daí a gente aprende a arriscar, a viver com ousadia. "Quem não arrisca, não petisca", já dizia meu primo filósofo toda vez que ia jogar os dados, enquanto a gente se degladiava em War II. O risco, pois, precede a sensação de "valer a pena", sensação essa que vem com a vitória. Na derrota, resta ao menos o aprendizado. Perceba que, independente da situação, precisa-se arriscar, pois a imprevisibilidade assim nos obriga. Portanto, falta de coragem é algo inconcebível. Arrisque-se, porra! Charles Chaplin já dizia: "O mundo pertence a quem se atreve". Charles Chaplin e meu primo eram gênios, não?!

Mas não é sobre riscos e vitórias que eu quero discutir hoje. Isso fica pra depois. Um outro post, quem sabe. A discussão de hoje é diferente, embora seja um lugar-comum. Advém da própria imprevisibilidade na qual todas as nossas vidas se inserem. Provavelmente você já pensou sobre isso um dia. Enquanto olhava para a vela, era nisso que eu pensava... até que a vela apagou e eu fiquei sem fazer nada. Nada. Mas e você? O que faria se hoje fosse o dia da sua vela apagar? O que você faria se hoje fosse o seu último dia?

Profundo, não? É, muito profundo. Confesso que perguntei de propósito. E das poucas vezes que me pego pensando nisso, chego a coisas diferentes. Se hoje, por exemplo, fosse meu último dia, eu faria coisas que talvez não fossem tão importantes amanhã, ou depois de amanhã. Deve-se isso a uma estranha mania que o ser humano tem de ser imediatista, de querer tudo agora e agora mesmo. Comigo não é diferente, acredite. Eu tenho lá meus momentos. Você também tem. Pode não querer admitir, como sempre fazemos com as coisas que nos convêm esconder, mas tem. E talvez, sabendo que hoje seria seu último dia, desse em você vontade de correr pelado pelo meio da rua, roubar uma loja de carros, comprar tudo que visse pela frente e ficar rezando pra que amanhã o mundo acabasse mesmo.

Humildemente, digo-lhes que, se amanhã minha vela apagasse, eu faria hoje tudo que me meteu medo durante toda a vida. Mas calma! Não tô falando aqui de fazer sexo sem camisinha ou dirigir em estado de completa embriaguez. Isso seria idiotice. Falo de, por exemplo, dizer "eu te amo" pra uma pessoa que eu amo de verdade. A banalização das coisas hodiernas associada ao meu lado leptossomático faz com que, por vezes, essa fala saia meio abafada. Ou, mais comumente, não saia. Pediria também um monte de desculpas pra um monte de gente, inclusive pr'aquelas pessoas que eu tratei com indiferença apenas por não entender que o jeito falso e sem-caráter é uma característica delas. Pediria sim. Pobres coitadas. Também ajudaria todas as pessoas que não merecem apenas para que elas tivessem mais uma chance de perceber que estão no caminho errado. Enfim, continuaria fazendo tudo que as 48 horas do meu dia permitissem (é, meus dias têm 48 horas). E quando todas as coisas assustadoras acabassem, eu partiria para as outras coisas, aquelas que todo mundo no meu lugar certamente pensaria em fazer. Primeiramente, iria ao hospital dar um abraço num certo amigo apenas por ter feito minhas manhãs mais felizes. Felizes demais, até. Diria a uma certa amiga que não se preocupasse por não saber o que fazer a respeito das coisas. Esse tempo todo falei como se soubesse, mas na verdade estava tão desorientado quanto ela. Entraria pela janela sempre aberta das pessoas para dar o último abraço de despedida, dizendo, obviamente, que depois a gente se veria novamente. Roubaria uma loja de doces e comeria quantos pudesse, contrariando minha própria vontade, apenas para ter o prazer de ter tido um comportamento de gordo um dia. E terminaria o dia na praia, olhando para o horizonte por uma última vez apenas para ter a certeza de que aquela linha lá longe é reta mesmo. Isso sempre foi algo que muito me intrigou.

E dormiria na areia o sono dos justos. Para acordar no outro dia e olhar tudo lá de cima. Ou lá de baixo. Nunca se sabe, né?! Com essa imprevisibilidade toda, nunca se sabe.








Post Scriptum 1: Um beijo para minha mais nova fã, Luíza: bêjo, Luíza, bêjo.

Post Scriptum 2: Desculpem a minha demora em atualizar essa piromba. As 48 horas estão se tornando obsoletas...
[ "You take the blue pill and the story ends. You wake in your bed and believe whatever you want to believe. You take the red pill and you stay in Wonderland, and I show you how deep the rabbit-hole goes... Remember: all I am offering is the truth, nothing more." ]

Quando a gente acredita, a gente pode fazer chover...