segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Brisa

Dei todos os meus sapatos. Os novos, os velhos, os bons, os mais-ou-menos... Dei, mas foi sem nenhum remorso. Dei também minhas roupas, todas. Até as cuecas foram embora, junto com todas as lembranças que elas instilavam. Doei meu relógio, minhas fitinhas do Senhor do Bonfim, meus bonés. Tudo que era adereço se foi. Dei. Arranquei a corrente de ouro malhado e o par de brincos e dei. Dei os lençóis da cama, as toalhas de banho e de mesa e até mesmo os papeis de toalha. Doei tudo.

Agora que eu estou nu, descalço, sem mandinga de santo ou do tempo e sem ouro ou prata pra escambear, hei de ficar mais leve. Tô lavando a preguiça e a vergonha-da-cara. Tô pintando a cara como quem se apronta pra ir pra guerra. Tô leve feito pluma e firme feito bambu.

Tô leve. Agora é só esperar uma boa brisa e deixar que o céu venha até mim... de novo.


quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Seja burro

Por que não viver melhor? Não lave louça! Use pratos de plástico, garrafas de plástico, tudo de plástico. Não gaste tempo a toa. Ande mais leve. Não carregue lixo: jogue na rua, no rio. Deixe tudo mais luminoso: acenda todas as luzes. Tome banhos longos, sem pressa. Esqueça a torneira pingando e pra onde você for, vá de carro. Afinal, se é só um buraco, é porque ainda tem ozônio de sobra na camada. Pense mais em você e menos nas focas e nos pingüins. Urso polares? Você só viu em filmes, e nos filmes eles sempre existirão. O futuro dos seus filhos... Ora, eles já serão adultos, vão saber se virar muito bem. Não ligue pro aquecimento global. Não dê bola pro mundo em que você vive.

Seja burro.


terça-feira, 10 de novembro de 2009

Chove chuva

Chove sem parar.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Coração espumando

Essa é uma daquelas histórias de amizade que a gente só tem uma vez em cada vida...


A gente não nasceu do mesmo ventre. Na verdade, sequer crescemos juntos. Ainda sim, passamos grande parte da infância e pré-adolescência
compartilhando os corredores, ginásios e cantinas da escola. Daí, no penúltimo ano de vida escolar, o destino achou que já era hora da gente esbarrar um no outro. E assim se fez.

Era segundo ano do ensino médio, última série do turno matutino e antes do pré-vestibular. Ao final desse ano, como já era de praxe, o colégio promovia uma viagem a fim de confraternizar todo mundo, como se tentasse amenizar a pressão que se seguiria no ano venturo
. Nesse ano e não muito diferente dos anos anteriores iríamos à Bahia, visitar o Pelourinho, numa viagem que era famosa pelas festas, pelos lugares e por toda a resenha. Decidi ir faltando apenas três vagas no ônibus "3", tudo porque minha até então namorada na época também iria. E então, terminada as aulas do primeiro semestre, estávamos dentro do ônibus rumando a Salvador, numa viagem que durou pouco mais de vinte e duas horas. Saímos daqui no dia trinta de junho, um sábado. No meio da viagem, passando por João Pessoa, uma garota teve sua bolsa roubada e, por isso, ficamos parados por quase duas hora na delegacia para efetuação do boletim de ocorrência. Na verdade, viramos a noite parados em frente à delegacia. Já nos primeiros segundos do dia primeiro de julho de dois mil e um, uma de nossas colegas puxou um efusivo parabéns: era aniversário de Vinícius.

E foi assim que tudo começou. Cantei parabéns levado pela comoção do grupo, tal qual nós fazemos quando alguém aniversaria
em pizzaria, sem saber ao certo quem estava aniversariando. Logo descobri quem era o felizardo e fui lá dar o primeiro de muitos apertos de mão que viriam. A viagem seguiu inesquecivelmente e, quando menos percebi, já estávamos de volta, na quarta-feira quatro de julho. Já na quinta todos do grupo confabularam em uma pizzaria e, quando menos percebi, descobri que o até então "aniversariante" estava do meu lado, conversando uma conversa que fluía sem nenhum esforço. Acabara de ganhar um grande amigo, mas ainda não tinha percebido. Logo já tinha o seu telefone, sabia o seu endereço e até o nome da sua mãe. Os gostos musicais, a forma de pensar, de agir, os valores... tudo foi se mostrando deveras parecido. No colégio, chegaram a perguntar se a gente "tava ficando" e esse era um questionamento muito engraçado. Logo o segundo ano findou-se e, quando menos percebi, eu e ele nós víamos todo dia. Pode parecer meio gay, essa coisa de ver um homem todo dia e tudo mais, mas era assim mesmo. E era bom. Quando isso não ocorria, um vazio era gerado quase que instantaneamente.

E veio o pré. E com ele a tristeza de não ter ficado na mesma sala. O pré se passou apenas para firmar algo que já era dedutível. Veio o fracasso do primeiro vestibular, o que não chegou a nos abater. Um ano mais tarde, era a sua vez de ingressar na faculdade, e somente a sua. Foi nesse momento que eu vi o quanto eu era dependente daquele "dia-a-dia". Agora era só eu e eu mesmo. Não tinha mais com quem conversar sobre música, mulheres e
heavy metal. Estava abandonado. Passei a fazer meu dever-de-casa não motivado pela necessidade ou vontade de também chegar lá, mas por não conseguir agüentar aquela solidão. Dois anos mais tarde chegou a minha vez e, embora tudo parecesse perdido, o vínculo ainda permanecia. E foi se fortalecendo como pôde. Embora a vivência não fôsse mais a mesma, a essência de tudo ainda permanecia. E cada pequeno encontro no corredor daquele hospital era como se nos levasse pr'aquela viagem de novo, pro pré-vestibular, pro tudo... tudo vivido de novo nos poucos minutos que a gente dispunha antes de cada um seguir para sua aula. E os anos foram passando, passando, sem que eu pudesse - quisesse, na verdade - perceber como seria daqui pra frente.

A questão é que a vida é assim mesmo. A gente nasce sem sequer saber como respirar e, quando menos se espera, já estamos alçando vôo
, muitas vezes pra longe de tudo e de todos. Meu tão querido e estimado amigo, mais uma vez, foi-se. Voou. Debandou. Foi pra longe. E eu fiquei só de novo. Sábado passado, momentos depois de findar mais um aperto de mão, foi difícil ir embora. Cada degrau de escada que eu descia era um flash que vinha à mente. Colégio, viagem, faculdade, histórias, estórias. Não que eu fosse descabar a la menininha manteiga-derretida, acabar-me em lágrimas e voltar lá para dar mais um abraço. Não. Isso, sim, seria uma coisa gay. Mas o continuar passo-a-passo foi revestido por pura nostalgia, por pura saudade. Saudade que eu ouso afirmar que nunca - com infinita ênfase no "nunca" -, nunca senti por mais ninguém. Todas as minhas outras saudades, quaisquer que tenham sido, não são nada comparadas a essa. E ela perdura desde o acordar no outro dia. E vai perdurar até o fim dos meus dias. Porque amigo é amigo. E a gente, às vezes, precisa estar longe para saber o seu valor.





Um abraço, meu irmão. E até breve. De novo.


[ "You take the blue pill and the story ends. You wake in your bed and believe whatever you want to believe. You take the red pill and you stay in Wonderland, and I show you how deep the rabbit-hole goes... Remember: all I am offering is the truth, nothing more." ]

Quando a gente acredita, a gente pode fazer chover...