sábado, 15 de março de 2008

Metalíngua

Poesia,
sim, é coisa nobre
Vale mais que ouro ou cobre
No vago átimo de um silêncio

Reflete, pois, a vida vasta
Poeta é coisa que arrasta
Mentes puras pr'o seu covil

[e quem sabe nuas.

Poeta, diz como fazes
Em teus delírios, teus oásis
Versos varos feito um rio

E se tens esse olhar
ora de deus ou de mortal
ora em exílio ou em bacanal
Como podes poetizar?

"Sou poeta, ó nobre amigo"
Diz-me aqui, em meu ouvido
Mostra assim o teu cristal

"Poesia é coisa tão sublime
que só se entende e se define
Por si só e ponto final"

[e ponto final.







Post Scriptum 1: Feliz dia da poesia pra todo mundo, gente.

Post Scriptum 2: Mera tentativa de fazer algo semi-bacana. Mera...


terça-feira, 11 de março de 2008

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Olhava pela janela do seu próprio quarto. Via um mundo incomum e clichê ao mesmo tempo. Observava bem, como agora lhe era de costume. Gostava dessa parte analítica da vida; era daqueles que falavam demais, às vezes, embora tentasse sempre calar a boca e aguçar a audição. Vinha aprendendo a ser assim ultimamente. Gostava disso.

Pela janela, ele via um quadro repleto de minúcias e nuances que, em outra ocasião, seriam impossíveis de serem contempladas com tanta verossimilhança. Via, de cara, um grande pátio, que servia de estacionamento para muitos carros. Mas não havia muitos carros lá agora, e sim algumas crianças jogando bola. Uma garotinha estava tentando atrair um gatinho para perto de si, conforme notara. O gatinho relutava. Próximo àquela conjuntura toda, era perceptível três mulheres, provavelmente mães, conversando profusamente, uma conversa notadamente agradável. Mas não se ouvia som algum daquela conversa, apesar da pronunciada satisfação.

Girando um pouco a cabeça para o leste, via um casal de namorados caminhando despretensiosamente pela calçada. Talvez estivessem trocando palavras afáveis naquele momento, mas, de novo, nenhum som era audível advindo aquela conversa. E, mais estranho de tudo, embora eles estivessem em pleno deslocamento físico, apresentavam-se impávidos, imóveis, incólumes. No meio da rua, dois carros - um vermelho, de aparência envelhecida, e outro cinza-prateado - cruzavam-se, seus motoristas bem vigilantes no caminho que seguiam. Mas o carros também estavam vítreos, embora o aspecto "borrado" das calotas denunciasse sua nítida aceleração. Nada disso causava preocupação.

Olhou para o céu. Via cúmulos-ninbus bem distantes, naquele aspecto típico de "areia de praia ao vento". Achava aquilo bonito, ainda mais agora que estavam alí feito uma fotografia. Tiraria várias se pudesse. Mais ao horizonte, em contraste ao pôr-do-sol iminente, via um céu vermelho-fogo, com alguns estratos dando realmente a impressão de uma chama à brisa. Contemplou aquilo por vários minutos. Nunca tinha visto daquele jeito. Bem no alto, percebia o discreto vislumbre de uma lua em quarto-crescente, já mostrando-se ao fim do dia que se aproximava. Retornando ao plano terreno, viu uma planta com rosas vermelhas exuberantes, uma delas enamorada por um belo colibri de tonalidade azul-metal. Suas asas eram, agora, um borrão azul, um orbital, e ele, de certa forma, parecia pender do céu por um fio de nailon invisível. Notava também que as folhas não farfalhavam como de costume. Era fim de tarde e nem mesmo a brisa soprava. Mas não achava estranheza alguma naquilo tudo. De algum modo, aquilo o acalmava, confortava, serenizava. Lembrou de um poema que lera certa vez. E depois, uma música. "De vez em quando, o mundo pede um pouco mais de calma", pensou. Calma. Fechou os olhos por alguns segundos e, ao abrí-los, tudo estava lá, do mesmo jeito.

Refez o caminho desde o início com os olhos novamente. Por fim, estendeu o braço a frente do corpo, para fora da janela, como quem mede uma jarda. Virou a mão para si e, roçando o primeiro dedo no terceiro, produziu um estalo característico, bem audível para ele. Subitamente, tudo ganhara movimento de novo: a bola caiu, as mulheres gargalharam, os namorados se abraçaram, os carros desapareceram. As nuvens, agora, efetuavam sutil translação. O colibri mudara de rosa. Algumas folhas caíam vagarosamente, enquanto outras, ainda presas, crirquilhavam. Sentiu o vento ressoar na sua face. Trouxe, então, o braço para dentro da janela e, nessa hora, percebeu que a garotinha, frustrada na tentativa de agarrar o pequeno felino, dirigia-lhe o olhar. Depois de um breve momento encarando-a, ela sorriu.

Percebeu, pois, que trouxera tudo ao normal de novo. Tudo.








Post Scriptum: Vocês não imaginam o que algumas xícaras de um bom café fazem com a cabeça de um semi-escritor durante a madrugada...

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Sexo selvagem

Já tô até vendo todo mundo olhando pro título e fazendo aquela cara de "Óóóóhhhhh!!!... Agora, sim, ele vai descambar à putaria...". Quem me conhece sabe o quanto eu prezo por discorrer sobre esse assunto inútil de vez em quando. Num boteco, numa sala de aula, no meio da rua, quem sabe... mas aqui não é lá um lugar muito apropriado para isso agora. Guardemos esse tema para uma provável discussão futura. Hoje eu quero falar sobre algo bem mais complicado, dinâmico, mutante e, por que não, incompreendido. Um assunto deveras controverso, mas que terei a audácia e petulância de arriscar fazer alguns apontamentos que julgo pertinentes. E sei desde já que estarei sujeito a apedrejamentos e esculachos gratuitos se não o fizer direitinho. Tá, mulheres! Hoje a pauta é sobre vocês.

E não pense que quando eu digo "sexo selvagem" estou me referindo àquelas atrizes que trabalham praticando o referido ato com notável vigor. Não, não, não. O "selvagem", na verdade, entra aqui mais como uma, digamos, qualidade. Deixem-me tentar explicar melhor. Por exemplo... estava certa vez assistindo a um dos melhores canais de todos os tempos - o Discovery Channel - quando percebi que o programa tratava sobre a vida daqueles felinos bacanas que vivem nas savanas africanas e têm aquelas jubas super maneiras. Daí, mostrava mamãe-leoa cuidando carinhosamente das suas mini-máquinas-de-matar quando, do nada, aparecia um leão pra lá de anabolizado que queria matar todos os leõezinhos da mamãe-leoa, coisa que o código penal chama de infanticídio. Profunda conhecedora dos seus direitos enquanto integrante da classe feminina, mamãe-leoa prostrou-se defronte ao aterrorizante marmanjo-leão e pôs-se a rosnar e mostrar seus belos caninos veementemente. Nessa hora eu "meio" que entendi, ainda que não de forma plena, o que é ser mãe. É engraçado como, apesar de ser apenas leões, a natureza é sempre a mesma em qualquer lugar. Qualquer mãe mataria ou se arriscaria impensadamente por um filho seu, e isso o Discovery Channel mostrou muito bem. Mulheres são selvagens, são leoas.

E tem também aquela velha passagem quase bíblica da menina que paquera o menino de outra menina. A menina que paquera, gaiata, faz-se de ingênua para, quem sabe, angariar o homem da próxima. A menina que tem seu homem paquerado, como boa defensora daquilo que lhe pertence, percebendo a pseudo-ingenuidade da outra, cerra os punhos e se prepara para a descarga de catecolaminas que se seguirá. Aí, nesse exato momento, eu lembro do Discovery de novo - ô canal massa, viu?! Os macaquinhos do gênero Callithrix, principalmente as fêmeas, são extremamente territorialistas. Eles vivem amontoados sobre árvores, dividindo os galhos entre si, cada fêmea com seu respectivo filhote. Agora imagine o que acontece quando uma fêmea "desavisada" invade o galho da sua vizinha... Isso mesmo: Monkey Mortal Kombat. Qualquer semelhança com as meninas lá de cima é mera coincidência, okey?! Como eu disse, mulheres são selvagens. Primatas, porém selvagens.

E, para chocar de vez toda a canalha masculina e fomentar furor entre as ultra-feministas ulfanistas desse mundo de meu Deus, vem a mulher moderna, mãe solteira, trabalhadora, bem-sucedida, que dá conta de casa, trabalho, filhos, pais, papagaio e tarará. Aquela que se reproduz quase que por partenogênese, aquela que troca pneu mais rápido que muito marmanjo, aquela que peita ladrão no meio da rua, aquela que não leva desaforo pra casa. Aquela. Ah, aquela... que mostra quem é que manda mesmo que, às vezes, não mande em nada. Tal qual a viúva-negra, que janta o próprio parceiro nos primeiros minutos pós-cópula, ela mostra quem é que manda. E mostra bem. Imagine só o que seria dos pobres namorados se, a cada ida ao motel, as namoradas sentissem uma fome desse naipe. Motel, eu não sei, mas de viúvas-negras o Discovery tá cheio. São uma selvageria só, essas mulheres.

E olhe que eu nem mencionei quando elas encarnam, por exemplo, o tubarão. O bom, velho e selvagem tubarão.








Post Scriptum: Eu voltei dessas férias co'a mulésta, foi não?!
[ "You take the blue pill and the story ends. You wake in your bed and believe whatever you want to believe. You take the red pill and you stay in Wonderland, and I show you how deep the rabbit-hole goes... Remember: all I am offering is the truth, nothing more." ]

Quando a gente acredita, a gente pode fazer chover...