sexta-feira, 12 de junho de 2009

Bum!

Era o fim para Jorge. Recluso na sala da direção, a espera de alguém que nunca viria por ele. Por todo colégio agora o boato que rolava era o motivo pelo qual Jorge estava alí: tinha espancado um colega de turma, Matias. "Marginal", "criminoso" e "animal" era o que se escutava de mais brando pelos corredores. Jorge, agora sozinho, tornara-se o inimigo número um de todo colégio.

[Vinte e quatro horas antes]

Passava um pouco das seis da manhã. Jorge acabara de abrir os olhos e, ainda olhando para o teto, deu-se conta de que estava levemente atrasado. No ritual de sempre, levantou-se e foi ter seu banho matinal. Banho frio, "lavador da alma" como costumava pensar. Seu irmão mais novo, James, ainda dormia. Jorge o acordou carinhosamente, como costumava fazer toda manhã, para que ele também não se atrasasse para a aula. Sua mãe Filomena, a dona Filó, ainda estava na cama dormindo. Hipersônia era um efeito colateral comum dos quimioterápicos que dona Filó
tomava. Dona Filó tinha câncer de mama em estágio avançado. Seu pai... bem, digamos que "pai" era uma palavra que Jorge conhecia apenas do dicionário. Saiu de casa quando Eleonor, enfermeira que cuidava da sua mãe, vinha chegando.

Jorge estava terminando o colegial. Pretendia com muito orgulho se tornar enfermeiro. Compadecia-se enormemente com pessoas em necessidade e, achava, a vida de enfermeiro permitira que ele ajudasse um infinidade de pessoas. Namorava com uma garota chamada Rebeca, ou Beca para os íntimos, e, embora o relacionamento tivesse passado por alguns momentos difíceis, os dois estavam em uma fase boa. Seu melhor amigo era Fred, franzino e pouquinho, com o qual Jorge compartilhava idéias e gosto afins. A amizade de longa data começou quando Jorge entrou em uma briga para proteger Fred, que estava sendo esmurrado por um garoto bem maior que ele, um tal de Matias. A partir desse dia, Jorge e Fred tornaram-se bons amigos. Matias, por sua vez, não viu essa amizade com bons olhos.

Matias era a típica figura dominadora da escola. Com porte avantajado, nascido em berço privilegiado e com um histórico de excesso de regalias desde a infância, não tinha muito apreço por leis ou regras. Achava-se acima delas e, por isso, era constante motivo de problemas para os pais e para a coordenação do colégio. Tinha seu grupinho de amigos e amigas, que, dentro do colégio, era conhecido como "os playboys e as patricinhas". Nada de incomum. Nada.

Mas o dia de Jorge estava apenas começando. O fato de aquela sexta-feira não ter nada aparentemente de anormal era apenas uma impressão. De cara, logo ao entrar no prédio do colégio, Jorge esbarra com Matias, que, como de praxe, solta piadinhas provocativas e que tem graça apenas para eles e os da sua "gangue". Seguindo o corredor, percebe um aglomerado de alunos em volta do quadro de avisos. "Sairam as notas finais", escutou alguém dizendo. Com alguma dificuldade, espremendo-se em meio á multidão, Jorge consegue chegar a uma distância visualmente viável e percebe, para seu desgosto, que ficara em recuperação em matemática, matéria essa que não era lá uma de suas preferidas. Os últimos meses cuidando da sua mãe debilitada e do pequeno James tinham roubado o tempo antes reservado aos estudos. Tomado de uma leve pontada de desapontamento, Jorge foi para sala assistir as aulas daquele dia. Não conseguia tirar da cabeça aquela nota baixa. Ficava se lamentando. As aulas agora tinham duração infinita.

No final do quinto horário, entretanto, aconteceu algo que quebrou a monotonia. Seu telefone toca. Era da sua casa. "Mamãe", pensou. Pedindo licença ao professor, saiu da sala e retornou a ligação. Eleonor atendeu e de pronto passou o recado:

- Jorginho, é sobre sua mãe. - disse - Ela teve uma convulsão e foi levada para o hospital. Eu liguei para a ambulância e eles acabaram de levá-la. Estou indo para lá agora mesmo. Assim que puder, pegue James e vá também! - e desligou.

Jorge não conseguiu falar nada. Imediatamente lembrou do irmão e foi ao seu encontro. Nessa mesma hora, tocava para o fim da aula. O corredor logo viraria uma algazarra. Apressou o passo. Virando a esquina que dava acesso ao prédio infantil, avistou Beca, dando-se conta de que era a primeira vez que a via naquele dia.

- Beca, preciso dizer uma coisa. Minha mã... - mas ela, com a face tensa, interrompeu-o.

- Pera, Jorge. Eu preciso dizer uma coisa antes, uma coisa mais importante. - e parou por um momento, olhando para lugar nenhum. - Não como dizê-lo, mas o farei mesmo assim: não quero mais. - o levantou o olhos para Jorge.

- Mas... er... hã? - balbuciou Jorge, meio que sem saber o que se passava pela sua cabeça.

- Não quero mais. Quero terminar. Não gosto mais de você, a gente não dá mais certo. Na verdade - e, nessa hora, Beca suspirou - estou com outro há algum tempo. Espero que você entenda... Não quero confusão.

E saiu, deixando Jorge com a sensação de ter parado um míssil com o peito. O seu cérebro agora estava frenético, mas, mesmo assim, não poderia ficar alí. Continuo seu caminho na direção do irmão. Tinha de encontrá-lo.

Chegando na sala, olhou pelo vidro da janela e viu James colorindo um papel contentemente, alheio ao que estava por vir. Pediu permissão à professora e tirou o irmão da sala. "É algo muito urgente, professora", dissera à professora do pequeno James. Fora da sala, ajoelhado na frente do irmão e segurando suas mãos, olhou nos seus olhos e começou:

- James, a gente vai ter que ir embora agora. - e percebeu que os do irmão olhos começavam a marejar. - Mamãe teve um probleminha e foi para o hospital. A gente vai se encontrar com ela, ok?

O fato de falar na mãe, contudo, foi suficiente para fazer escorrer pelos olhos do pequenino lágrimas sem qualquer objetivo. Ele ficou lá, olhando para Jorge e lavando o pequeno rosto com as lágrimas que escorriam. Jorge abraçou-o enquanto a multidão começava a passar pelo corredor. Os dois ficaram alí. Passando em meio a multidão, Matias percebeu a cena e não perdeu a oportunidade de se aproximar. Olhou para Jorge e James alí e falou algo que o faria se arrepender pelos próximos trinta minutos.

- Que bonitinho. Quer dizer que agora que você não tem mais namorada, decidiu dar em cima do próprio irmão... - falou com o ar mais zombeteiro possível.

Escutando aquilo, veio á cabeça de Jorge a imagem de Beca novamente. E depois da mãe, e do irmão, e de Matias. Nessa hora, Jorge soltou o irmão, levantou-se e, sem enxergar direito o que fazia, explodiu seu punho direito contra a face do playboy, que foi ao chão. Depois veio o punho esquerdo, e o direito, em uma sucessão de golpes direcionados para o nariz, boca e bochechas de Matias. A multidão abriu uma roda e, aparentemente, estava gostando do espetáculo. Matias estava quase inconsciente quando alguns garotos apartaram os dois, segundos antes dos coordenadores chegarem. Matias foi levado às pressas à enfermaria. Jorge, ao som de protestos,
foi encaminhado à sala do diretor.

Tinha explodido. Mas isso era algo que ninguém iria entender. Ninguém.



segunda-feira, 27 de abril de 2009

Fato

Às vezes, quando você está triste, ninguém nota seu sofrimento.
Às vezes, quando você chora, ninguém percebe suas lágrimas.
Às vezes, quando você está contente, ninguém contempla seu sorriso.














Agora experimente peidar apenas uma vez.
Só uma vez.


quinta-feira, 5 de março de 2009

Ritual

De volta ao batente.


Os Maori são uma tribo nativa da Nova Zelândia, mundialmente conhecidos como aborígenes após a colonização de seu território por exploradores europeus. Como toda tribo digna, os Maori
possuíam uma diversidade de rituais, sendo o "Moko", talvez, o mais difundido. Moko era o nome dado ao ritual de tatuar a face, coisa que, dentro da tribo, chegava a designar status e posição social. Para um homem Maori, quanto mais tatuada a face, maior o seu grau de nobreza. Guerreiros mortos em batalha tinham suas cabeças decepadas e guardadas em urnas sagradas, tornando-se, mais tarde, objetos de grande cobiça por parte dos colecionadores.

E a lista de rituais não parava por aí. Embora fosse uma tribo firmemente organizada em torno de padrões hierárquicos complexos para a época, os Maori também possuíam hábitos ultrapassados para o seu tempo. Um deles era o ritual da "Kakunia", na qual toda criança que nascesse com algum problema congênito seria abandonada à própria sorte, quase sempre morrendo de inanição ou sendo devorada por algum predador. Era a forma vista por eles de purificar a tribo de qualquer mal que pudesse acometê-los.

Zamuth e Zethen eram irmãos gêmeos, nascidos e criados sobre a doutrina Maori. Zamuth, o primeiro a nascer, veio ao mundo maior e mais pesado que o normal, sinal de extremo vigor na concepção da tribo. Zethen, mais franzino e frágil que Zamuth, já não deixou a mesma impressão. Assim que nasciam, todas as crianças eram levadas para serem inspecionadas pelo Pajé. Zamuth, como era de se esperar, impressionou pelo tamanho e força. Zethen, entretanto, não teve a mesma felicidade. Após a visita ao Pajé, a mãe ficou sabendo que Zethen possuía um defeito mortal no "tanuoh", que, na língua deles, quer dizer coração. Assim, o destino de Zethen estava traçado. Algum familiar deveria levá-lo às pradarias e deixá-lo lá, envolto num pano, conhecido como "theru", e sobre o qual se depositaria um ramo de aroeira.

Entretanto, contrariando o rito sagrado, a mãe resolveu criar ambos os filhos, escondendo do resto da tribo a morbidade de Zethen. A assim foi feito. A muita custa, as crianças cresceram, cada uma na sua individualidade, até completarem vinte e um anos. Zamuth cresceu com todo o vigor que já lhe era peculiar ao nascimento. Tornou-se um homem imponente e altivo. Zethen, sob todos os cuidados da mãe, não apresentava lá a mesma energia do irmão, mas também não tinha um ar tão doente.

Vinte e um anos se passaram sem que Zethen despertasse nenhuma suspeita. Nem mesmo Zamuth era ciente da moléstia do irmão. Foi quando então, um dia, por intermédio da curandeira da tribo, que havia ido à casa dos garotos para tratar uma ferida na perna de Zethen e escutara a mãe falando com a irmã sobre o filho doente, que o Pajé soube que aquele garoto de vinte e um anos atrás ainda estava vivo. Logo houve comoção por toda a tribo. Um ritual de milhares de anos havia sido quebrado e alguém ia pagar por isso. No centro da vila reuniram-se os aldeões de maior patente a fim de decidir o que seria feito. A mãe, tida como a grande transgressora, deveria ser julgada de acordo. Após longa discussão, ficou-se decidido que Zethen deveria ser expulso da vila e sua mãe, sacrificada. Houve nova comoção. Vendo tudo, o próprio Zethen resolveu entrar em cena.

- Eu não entendo. Eu passei vinte e um anos da minha vida vivendo às escuras sem ninguém saber de nada. Não creio que meu problema deva ser motivo de tanta balbúrdia. - disse o jovem.

- Você conhece o ritual, Zethen. Assim como sua mãe. Jamais foi permitido que tamanho absurdo fosse tolerado. Vivemos há milhares de anos em harmonia por causa do modo como sempre fomos. - retrucou o Pajé, inflexível.

- Pois bem. Proponho um acordo. Vou provar a todos que eu sou tão capaz quanto... quanto...

Nesse momento, Zethen parou. Um filme passava pela sua cabeça. Todos aqueles anos vistos num átimo de segundo.

- Vou provar a todos que sou tão capaz quanto meu irmão. - finalizou.

A balbúrdia aumentou. Ouviam-se gritos e sussurros.

- E como você pretende fazer isso? - indagou o Pajé, curioso.

- Vamos nadar mar adentro. Aquele que conseguir nada para mais longe da costa será considerado o mais apto. Se eu conseguir, exijo o direito de permanecer na tribo e quero que minha mãe seja poupada. Do contrário, eu mesmo pularei do precipício.

O silêncio que se seguiu pareceu ter durante uma eternidade. O Pajé sentiu-se tentado a ver o desenrolar daquilo e aceitou o desafio. Sabia qual seria o resultado inevitável. Todos sabiam. Ver Zethen pulando do alto da Grande Montanha eximiria-lhes da culpa. E assim sendo, todos foram para casa, para se preparar para o dia seguinte.

Na manhã que veio, todos estavam à beira do mar. Os irmãos estavam ladeados e não trocavam olhares ou palavras. Antes de autorizar o início do ato, o Pajé foi ter com Zethen.

- Espero que você saiba o que está fazendo. Ninguém irá te salvar se você se afogar. Nem mesmo o seu irmão. - disse o Pajé.

Zethen, contudo, permanecia impávido, concentrado na vista que tinha do oceano. Nunca tinha visto por aquele ângulo. Sua beleza era indescritível. Contemplou o horizonte, o sol nascente e estava a observar uma gaivota solitária quando o Pajé gritou, autorizando a contenda. Os dois irmãos mal correram para a água e já estavam nadando. Ambos davam tudo de si. Zamuth, de início, conseguiu abrir notável vantagem, fazendo o Pajé sorrir sorrateiramente. Zethen, indisposto a desistir, dava tudo que podia. Já tinham vencido a linha de arrebentação da praia e agora nadavam em direção ao alto-mar. O público postado na praia observava os dois irmãos virarem pontinhos no horizonte. Logo tudo estaria acabado. Logo todos voltariam para casa sem nenhuma surpresa.

Após nadarem mais de um quilômetro e meio, Zamuth começava a sentir o cansaço tomar conta do seu corpo. Foi diminuindo o ritmo paulatinamente até parar na água. Olhou para trás, em direção à praia, e já não conseguia divisar a costa. Percebeu logo após que também não havia sinal do seu irmão. Apavorado, começou a gritar pelo seu nome sem obter resposta. O irmão havia se afogado. Lágrimas escorriam pela sua face. Voltou para a praia com o maior pesar do mundo no coração. Saiu da água e se ajoelhou na areia, pedindo desculpas à mãe por não ter salvado o irmão enquanto pôde. Todas as atenções estavam em Zamuth. O Pajé agora possuía um ar de contentamento, exatamente aquele de alguém que aprecia um fato já esperado. Acabara de dar as costas para voltar à vila quando algo aconteceu. Um grito... e alguém vinha saindo de dentro d'água.

Era Zethen com certeza. Não parecia cansado. Tinha no rosto um traço sereno e firme. Ajoelhou-se ao lado do irmão sem que esse pudesse vê-lo. Ao se virar, Zamuth teve uma enorme surpresa e mais lágrimas irromperam face abaixo. Zethen colocou a mão em seu ombro.

- Pensei que você tivesse se afogado. - falava Zamuth atropeladamente. - Olhei para trás e não te vi.

- E porque eu estava à sua frente, irmão. Te ultrapassei sem que você tivesse me visto. - falou Zethen calmamente.

- À minha frente?! Então você conseguiu, irmão! Você foi mais longe.

Zamuth estava animado com o ocorrido. Enfim, o irmão poderia ficar.

- Mas se você estava à minha frente, por que não parou e me avisou para voltarmos?

- Não estava nadando para voltar, irmão.


[ "You take the blue pill and the story ends. You wake in your bed and believe whatever you want to believe. You take the red pill and you stay in Wonderland, and I show you how deep the rabbit-hole goes... Remember: all I am offering is the truth, nothing more." ]

Quando a gente acredita, a gente pode fazer chover...