sábado, 14 de julho de 2007

Você é o que ninguém vê

Talvez vocês não saibam, mas ultimamente eu tenho andado meio ocupado com um trabalho da faculdade (esse "meio" foi puro eufemismo) que tem consumido minhas madrugadas. Não bastassem as perguntas sem noção (Qual a importância química, física e biológica do arco-íris?), agora eu sou obrigado a responder perguntas que nem a filosofia se atreveria. Daí, depois de muita consulta google adentro, eu estou quase convencido de que sou o Platão da era moderna. Por isso, resolvi fazer um post a respeito do que talvez seja o assunto mais complexo e controverso que há: o eu. Perceba que o substantivo "eu" é precedido pelo artigo "o", fazendo com que esse "eu" não seja, na verdade, esse que humildemente vos escreve. O eu de que falo é aquele que vive dentro de nós, aquela vozinha no fundo da nuca, aquela coisa com vida que a gente pensa, por vezes, ser nosso estômago roncando.

Um dicionário que eu tenho desde a 4ª série, o Larousse, dá a seguinte definição para eu: "EU (lat. ego). pron. pess. da 1ª pessoa do sing. (caso reto), empregado como sujeito. * s.m. O sujeito que fala, pensa ou sente, por oposição à sua exterioridade. * Psican. Sin. de EGO". Pois bem. Acho que todo mundo concorda com isso. Mas tem uma coisa aí (e é capaz de você tê-la deixado passar desapercebida) que me chamou a atenção mais do que todas: por oposição à sua exterioridade. Exterioridade, até onde minha vã filosofia supõe, relaciona-se ao que se é "para fora", "para o exterior", para o mundo (?). Na verdade, era aqui que eu queria chegar. O eu que nós somos para nós mesmos nos é bastante familiar. Lidamos com ele todo dia. Já o que nós somos para o mundo, nem tanto. Complexo, né?! Eu disse...

O mundo, por ser tão grande e dinâmico, vê os "eus" que o habitam como minúsculas personagens, vivendo suas vidinhas pacatas. Nessas horas que eu adoro aquele filme, que fala mais ou menos sobre isso. Como é mesmo o nome dele? É... é... Ah, lembrei! "Matrix". Num universo de bilhões de eus diferentes, o seu se torna insignificante. De certo modo, até um clichê. Simplesmente não importa. Você é o que você é e não o que o mundo vê. Você, meu amigo, é o que ninguém vê. Ninguém.

Agora pare e pense em quantas coisas a gente faz sem ninguém saber. Quantas coisas sentimos, falamos, pensamos, tudo no mais absoluto sigilo. Pensar, por si só, já é algo por demais sigiloso. Você é o que ninguém vê simplesmente porque, para os outros, o que você é não importa muito. Eles já são ocupados demais com o que eles mesmos são. E sem perceber você se pega fazendo aquelas coisas nas quais sua única companhia é você mesmo. Quem nunca cantou durante o banho? Ou dançou freneticamente no quarto, como se estivesse no meio da boate? Ou ficou horas e horas sentando na areia, olhando para o horizonte e pensando em absolutamente porra nenhuma? Sair andando sem rumo, escrever um poema, falar sozinho, ter amigos imaginários. Isso tudo é você sendo aquilo que ninguém vê. Pode acreditar.

E não pense que essas coisas são motivo de tratamento psiquiátrico. Não, não, não. É nesses momentos que a gente conhece aquele que nos acompanha por toda a vida. O nosso eu. Pais, irmãos, namorada, amigos, vizinhos... todos, um dia, vão embora sem nós. Todos menos um. E as pessoas não entendem que esse "um" também precisa de atenção. Muitos problemas são resolvidos quando a gente admite que precisa estar sozinho. Porque é sozinho que a gente é o que ninguém vê. E o que ninguém vê é o que importa verdadeiramente. O que todo mundo vê pode ser fruto do nosso personagem (lembra do minúsculo personagem?). E o personagem não reflete necessariamente a essência daquele que o interpreta. Se assim fosse, todos os vilões seriam maus, todos os mocinhos casariam com as mocinhas, todo mundo poderia voar ou parar balas com a mão. Mas não é.

Por isso, meu amigo, da próxima vez que o mundo estiver desabando na sua frente, lembre-se de quem você é. Lembre que você é os brinquedos que brincou, as gírias que usava, os segredos que guardou, você é sua praia preferida, você é o renascido depois do acidente que escapou, aquele amor atordoado que viveu, a conversa séria que teve um dia com seu pai, você é o que você lembra. Você é a saudade que sente da sua mãe, a infância que você recorda, a dor de não ter dado certo, de não ter falado na hora, a emoção de um trecho de livro, a cena de rua que lhe arrancou lágrimas, você é o que você chora. Você é o abraço inesperado, a força dada para o amigo que precisa, a sensibilidade que grita, o carinho que permuta, os pedaços que junta, você é o orgasmo, a gargalhada, o beijo, você é o que você desnuda. Você é a raiva de não ter alcançado, a impotência de não conseguir mudar, o ódio que tudo isso dá. Você é os direitos que tem, os deveres que se obriga, você é a estrada por onde corre atrás. Vocé é o que ninguém vê.








Post Scriptum 1: Não me culpe pelo texto. Culpe o meu trabalho de semiologia.

Post Scriptum 2: Sou ou não sou o novo Platão? [risos]

domingo, 8 de julho de 2007

Como ser um super-herói

Se você tiver músculos, ajuda. Super-força, visão de raio-X, ultra-velocidade também. Saber voar, soltar raios pelas mãos, subir pelas paredes, controlar a chuva e dirigir (?) pode ser útil. Enfim, ser um super-herói não é tão complicado assim: nada que algumas habilidades esquisitas e um ou dois sujeitos com cara de mau não resolvam. Daí você pode criar sua própria roupa, com símbolos legais, letras que brilham, muita purpurina e uma capa pra lá de duvidosa. Coloca tudo numa pessoa sem qualquer senso de vergonha e BUM!... aí está o seu novo super-herói.

Mas o mais legal a respeito dos super-heróis não são suas habilidades, suas roupas, seus inimigos e essas coisas clichês. O mais legal é que, não importa o que haja, eles sempre estão lá por você. Sempre. Pode ser uma velhinha precisando atravessar a rua, um gatinho preso numa árvore, um prédio em chamas, um cometa que ameaça a vida na Terra. "Um pássaro? Um avião?". Dah... é apenas ele vindo salvar o dia mais uma vez. Daí tem todas aquelas explosões, e pessoas correndo perigo, e coisas pegando fogo, e gritos, e desepero e, de alguma forma que ninguém sabe ainda, ele consegue dar conta de tudo. E vai embora como se isso não passasse de um favor, uma obrigação, sem nenhum arranhão ou sinal de cansaço. Isso sim que é vida.

É assim que a gente cresce: idolatrando historinhas que nos fazem querer ser assim como eles. Eu mesmo tinha uma pilha enorme de gibis do Homem-Aranha. Até hoje, não há nada que se relacione a ele e que não me faça sentir aquela sensaçãozinha que eu sentia quando criança, aquele friozinho na barriga, aquela vontade de explodir. E a gente vai crescendo e vendo que tudo aquilo não passava de uma mentira boba, porém boa. Uma mentira que a gente fazia questão que fosse mentida, semana após semana, que era o período entre uma revistinha e outra.

E o melhor de ser endeusar um super-herói quando criança é que você cresce com todos os valores legais pregados por eles. Ser legal com as pessoas, ajudar quem precisa, ser forte, saber lidar com os problemas. Afinal, os heróis são, no fundo, uma pessoa qualquer. É assim com Peter Parker, com Reed Richards, com Anthony Stark, com Bem Grimm, com Matthew Murdock, com Scott Summers, com Norrin Radd, com Bruce Banner, com Jean Grey, com Hank McCoy, com Bob Drake, com Charles Xavier e com tantos outros . Isso, de certo modo, torna-os mais próximos de nós mesmos. E, com isso, a gente vai aprendendo a ser como eles, sempre dispostos a salvar o dia de alguém. E salvando o dia dos outros descobrimos nossos 'super-poderes' e percebemos que fora dos gibis os super-heróis somos nós. Somente nós.

Tia May disse uma vez, no segundo filme do Homem-Aranha, algo que resume bem o que é ser um super-herói. Uma das mais belas falas, eu diria. Vai muito além do que se propõe dentro do filme. Era mais ou menos assim: "He knows a hero when he sees one. Too few characters out there, flying around like that saving old girls like me. And Lord knows, kids like Henry need a hero - courageous, self-sacrificing people setting examples for all of us. Everybody loves a hero. People line up for them... cheer them... scream their names. And years later, they’ll tell how they stood in the rain for hours just to get a glimpse of the one who taught them to hold on a second longer. I believe there’s a hero in all of us... that keeps us honest... gives us strength... makes us noble... and finally allows us to die with pride, even though sometimes we have to be steady and give up the thing we want the most - even our dreams." que, traduzindo pro bom e velho português, fica mais ou menos assim: "Ele reconhece um herói quando vê um. Quase ninguém por aí chega daquele jeito salvando 'garotas' como eu. E Deus sabe que crianças como Henry precisam de um herói - pessoas corajosas e altruístas que servem de modelo para todos nós. Todos mundo gosta de um super-herói. As pessoas se unem por eles... torcem por ele... gritam seus nomes. E anos depois, eles vão lembrar como ficavam horas na chuva aguardando apenas o momento de ver aquele que os ensinou a esperar um pouquinho mais. Eu acho que há um héroi em cada um de nós... que nos mantêm honestos... nos dá força... nos enobrece... e, finalmente, permite-nos uma morte gloriosa, mesmo que às vezes nós tenhamos que permanecer firmes e desistir daquilo que a gente mais deseja - até mesmo dos nossos sonhos."


Agora levante a bunda dessa cadeira e vá salvar o dia de alguém. Vá, vá...







Post Scriptum: Esse post de hoje é totalmente dedicado a todo mundo que foi ao Hemocentro, quinta-feira, doar sangue pro garotinho que está com leucemia. Vocês foram os verdadeiros super-heróis. E quem ainda não doou, ainda está em tempo de virar super-herói também.

quarta-feira, 4 de julho de 2007

O amor usa drogas

"O amor usa drogas". Essa foi, durante quase uma semana, a minha 'mensagem pessoal' do MSN. E, de tanto todo mundo perguntar, eu decidi vir aqui [tentar] explicar de onde saiu essa teoria. É isso mesmo: uma teoria. Vez por outra, pego-me pensando naquelas coisas que a gente diz serem "nada a ver". Por isso, vos digo desde já que se trata de algo completamente "viajante". Não procure entender. Nem eu entendo certas partes ainda.

Sexta-feira passada, dia vinte e nove de Junho, fui ao centro da cidade procurar umas coisas pra minha equipe do JASAC. Acompanhando-me, foi meu querido amigo-frango, Fernando (ele pediu pr'eu fazer a propaganda dele aqui no blog). Depois de andar quilômetros sem achar nada, a gente decidiu dar por terminada nossa missão. Andamos mais um pouco e finalmente chegamos ao ponto do ônibus. Daí a gente começou a conversar sobre várias coisas. Falamos sobre um cursinho pré-vestibular que havia alí perto, o qual nós havíamos cursado; falamos sobre uma festa de uma "bixinha" que eu ainda ía e que, como bom amigo que sou, levaria-o de "penetra"; brigamos porque ele, como frango que é, recusou meu convite... enfim. Nesse meio-tempo, chegou nossa condução: o "35". Sentamos um pouco antes do meio do ônibus e começamos a conversar de novo. De repente, e eu não me lembro como, começamos a falar sobre como as pessoas ficam quando gostam de alguém. É aqui que começa toda a pseudo-teoria.

Todo mundo aqui sabe (eu falo todo mundo mas apenas cinco pessoas comentam no meu blog) como se é aquele estado conhecido como "estar apaixonado". A pessoa se sente flutuando. A pressão vive acima do normal, o coração bate mais do que devia, as pupilas dilatam, pêlos eriçam, respiração ofega, temperatura sobe. O simples contato visual é estímulo suficiente pra você se sentir "a pessoa mais feliz do mundo". Isso tudo a fisiologia explica bem direitinho. Porém, o que ela não explica tão bem assim é porque a gente age feito cachorro em beira de açougue. E o que o homem faz quando quer tentar explicar algo que não está tão claro assim? Cria uma teoria. Existem várias por aí, nenhuma completamente certa ou errada. Talvez a minha seja mais uma delas. Talvez não, sei lá.

Voltando ao ônibus, lembro-me de ouvir Fernando dizendo algo do tipo "o amor é cego", fala esta que mais tarde ele complementou com "surdo, mudo e louco". Enquanto ele falava, eu tentava concatenar as milhões de coisas que passavam pela minha cabeça naquele momento, uma vez que, para mim (e creio que pra todo mundo), falar de amor não é algo muito comum no dia-a-dia. O máximo que a gente discute é sobre "bixinhas(os)", ficadas, resenhas e outras coisas mais. Mas amor... amor não. Amor a gente pensa como sendo aquele momento no qual a gente vai ter 34 anos, vai estar formado, casado e esperando o primeiro filho. Daí eu pensava comigo mesmo: "Porra, bicho... Amor é uma coisa louca mesmo". Enquanto isso, Fernando ainda falava e falava. Repentinamente, eu parei e dei início à explicação que fundamentaria toda a minha tese.

"Fernando, po - disse eu - o amor usa drogas." "Drogas?!?!", indagou ele, espantado. "Isso mesmo. Drogas!", retruquei. "O amor usa drogas e são elas que explicam toda a cegueira, a surdez, a mudez, a loucura, tudo. Se você parar pra pensar, não existe tanta diferença entre uma pessoa que está apaixonada e uma que curte aquele baseadozinho. Pare e pense em quantos já mataram por droga e quantos outros já 'mataram por amor', crime esse que o Direito chama de passional (do latim, passionalis, refere-se à tudo que pertence às paixões; que é inspirado particularmente por paixão amorosa; ciúme). Repare como o drogado, assim como o apaixonado, age por impulso, por emoção, sem medir nem pesar, por achar que é invulnerável. O mundo do apaixonado muda com a paixão, assim como muda o do drogado com a droga, e isso é tão verdade que quando se está apaixonado ou drogado demais tudo que se quer é permanecer assim. São drogas diferentes, claro. Mas os efeitos são similares." Nesse momento, Fernando estava com os olhos esbugalhados para mim, como se tudo que lhe dissera fosse novidade. Prontamente, ele disse: "Meu amigo, essa foi a melhor explicação que eu já vi alguém dar pra esse assunto. Você 'viajou', é verdade, mas foi algoz e perspicaz. Gostei." Completei dizendo que, de tão bom, ia colocar no meu MSN. E assim o fiz.

A explicação não parou por aí. De tão excêntrica, fez-me rir sozinho quando Fernando desceu do ônibus. Às vezes, surpreendo-me comigo mesmo. Mas mais do que tudo, essa minha frustrada tentativa de tentar explicar o inexplicável me mostrou que falar de amor é tão difícil quanto demonstrá-lo, quanto senti-lo... E me fez lembrar também que, há algum tempo atrás, num espaço de pouco mais de uma semana, três pessoas vieram até mim alegando que eu estava com cara de apaixonado. Vai ver eu estou mesmo, e criei isso tudo como uma forma de tentar me entender. Vai ver não. Nunca se sabe, afinal. Nunca se sabe...
[ "You take the blue pill and the story ends. You wake in your bed and believe whatever you want to believe. You take the red pill and you stay in Wonderland, and I show you how deep the rabbit-hole goes... Remember: all I am offering is the truth, nothing more." ]

Quando a gente acredita, a gente pode fazer chover...